quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Roteiros

ROTEIROS
ESCRITOS NA FACULDADE














DIA DE ANJO
ADAPTADO DO CONTO HOMÔNIMO – 1 DE JUNHO DE 2004














1- INT. APARTAMENTO. TARDE

Um adolescente deixa seus cadernos sobre a mesa da sala de jantar. Sobre os cadernos há um chaveiro de menina, desses que fazem barulho quando se aperta porque o ar sai de seu interior. Dentro de um dos cadernos vê-se uma ponta de uma prova de matemática com uma nota vermelha escrita. O jovem segue até um banheiro e começa a urinar com a porta aberta. É uma casa bem luxuosa, gente de grana. Atrás dele, na porta do banheiro, aparece uma mulher de uns cinqüenta anos que começa a falar como se não tivesse muita intimidade com o garoto.

MÃE
Oi, não sabia que era você...

ADOLESCENTE (sem entusiasmo)
Hum..hum

MÃE
Também, não fala nada quando chega....

Ele balança sua cabeça em sinal de afirmação, enquanto termina de urinar. Sua mãe vai para sala. Enquanto ele lava suas mãos, a ouvimos falando.

MÃE (off)
tem pãozinho quente, acabei de trazer da padaria

O jovem e sua mãe estão sentados em extremos opostos da mesa, frente a frente. A mulher está lixando sua unha e ele pega um pão francês de um saco com outros pães. Eles estão calados até que ela tenta puxar assunto

MÃE
Sabe a Rita, minha amiga. Ela teve que sacrificar sua cachorra que estava doente. O bicho tava com uma ferida feia no rabo...
não parecia nada, mas o veterinário disse que só ia piorar e deu uma injeção letal nela. Coitada, a Rita está desconsolada.

O jovem fica indiferente ao que lhe é contado e continua comendo seu pão e brincando com uma fruta de cera sobre a mesa. Depois de um novo silêncio, sua mãe vê a nota da prova de matemática que está entre os cadernos dele. 2.38 é a nota.

MÃE (ironia chata)
Boa nota...fico contente por você estar cuidando do seu futuro

ADOLESCENTE
Não agora, certo

MÃE (séria e ainda chata)
Ainda mais agora que as coisas vão bem por aqui, seu pai diz que vai ajudar a gente e nem para em casa e você e sua irmã nem liga para o estudo que investimos e quando falo nem me ouvem...

ADOLESCENTE
Então não fale. Não sou eu que tenho que falar de cachorro para puxar assunto com meu filho

MÃE
Certo, é sempre minha culpa

ADOLESCENTE (fala com tranqüilidade, maturidade)
Não se trata de culpa, entende. Se o professor não fosse um escroto imbecil, quem é capaz de dar uma nota 2,38?.. mas você não que saber disso...

Ele apanha seus cadernos e leva para o quarto voltando somente com o chaveiro nas mãos, ele continua dizendo enquanto anda pela casa

...2 e 2 são 4, certo? você é minha mãe... isso não quer dizer que somos amigos ou que temos que conversar...

MÃE...(ela está quase chorando)
Que ótima família nós somos

ADOLESCENTE
Não é comigo que vocês tem que resolver seus problemas... jogue seus problemas e os do pai no lixo se quiser e não em mim....

Ele vai saindo do apartamento.

ADOLESCENTE
Cachorra doente... que se foda a cachorra e tudo mais...

CRÉDITOS ENQUANTO ELE ESPERA O ELEVADOR

2 - INT. ELEVADOR. TARDE.

Vemos o rosto do rapaz dentro do elevador. Ele aperta o chaveiro que solta um som de ar “nhek nhek”, percebemos que são seus pensamentos os planos seguintes

3 - INT.HALL DO PRÉDIO. TARDE
Planos detalhes de uma garota. Seus cabelos, suas pintas, pequenas peculiaridades.
Segue uma voz off do rapaz

ADOLESCENTE (off)
Um anjo, um anjinho lindo como nenhum outro que há no céu

4 - INT. ELEVADOR. TARDE
O jovem aperta impaciente o botão térreo no painel.

5 – INT. HALL DO PRÉDIO. TARDE
Vemos mais detalhes da moça. Sua meia delicada em seus pés sobre a mesa, suas mãos, partes do seu rosto, boca...

ADOLESCENTE (off)
Anjinho, que ironia a minha. Ou não, afinal os anjos também devem meter. Um anjo de seios clarinhos como nunca vi igual, rosa, lindos

6 – INT. ELEVADOR. TARDE
O elevador pára em algum andar e entram um homem e uma mulher com cara de perua. Eles ficam em silêncio por um tempo e quando ela mostra feliz seu anel para o noivo o jovem começa a dizer.

ADOLESCENTE (rude e direto)
Sua puta burra. Você não vê que isso é um presente porque o cara está te chifrando com a vizinha da frente e quer continuar te comendo mesmo assim...

O casal está perplexo com o que escutou. O jovem os encara secamente.
Tudo volta ao normal na cena. Ninguém disse nada. Somente uma vontade dele fantasiada em ação cênica.

7 – INT.HALL DO PRÉDIO.TARDE

Aline, a menina a qual vimos detalhes enquanto o cara descia no elevador, está sentada em uma mesa na entrada do prédio e veste as mesmas roupas das cenas anteriores remetendo que eles já estavam juntos e que o rapaz pensava nela enquanto descia do elevador. Eles se beijam no rosto, de novo, e o cara lhe devolve seu chaveiro que assovia.

ALINE (referindo-se ao beijo)
De novo

ADOLESCENTE
É sempre bom manter o contato

Eles sorriem meio sem grassa. Ela estava lendo uma revista sobre surfe; praia, que agora está sobre a mesa. Os pés dela também estão sobre a mesa e ela veste uma meia com um desenho de algum personagem de desenho animado.

JOVEM (tentando manter a naturalidade quebrada na primeira fala)
Bonita meia

ALINE
Legal né? É um carinha de um desenho que está passando na tevê. Eu vi na loja e achei bonitinho

O cara apanha a revista e dá uma olhada rápida na página que está aberta. Uma linda praia e altas ondas. Entra um som de mar surreal para manter os dois em silêncio por um tempo na cena, como se continuar o diálogo fosse uma dificuldade, rola um certo constrangimento entre os dois, até que ele fala

ADOLESCENTE
Como vão as aulas?

ALINE
Chatas. Fiz uma prova difícil de Física. Acho que fui bem mal, mal mesmo.

ADOLESCENTE
Estou indo bem com as minhas. Não vou esquentar com besteiras como provas de conhecimento restrito...
(ele se refere à revista com um certo deboche)
prefiro conhecer uma praia

ALINE (apontando o que ele vê)
Queria estar numa dessa agora

ADOLESCENTE
Até mesmo Einstein iria querer. Imagina ele surfando com aquela cabeleira e de língua para fora...
(eles sorriem)
ele podia te ensinar Física

Continuam rindo por um tempo. O cara faz um gesto de quem pega uma onda e eles se tocam de leve nas mãos.

ADOLESCENTE
Adoro quando você ri do que falo

Constrangimento grande no ar. Eles se olham envergonhados. Aline corta uma intimidade que possa rolar no modo técnico que diz, e ele no responder.

ALINE (mais afirmando que perguntando)
Vamos para o prédio

ADOLESCENTE
Vamos aí



8 INT. PRÉDIO EM CONSTRUÇÃO. TARDE

Os dois estão em uma sala grande de um apartamento ainda em construção, sem mobília e com alguns materiais de obra espalhados pelo chão, sacos pretos sobre pias e objetos já postos no lugar...

ADOLESCENTE (próximo à sacada, sendo irônico)
É engraçado alguém vir morar aqui pensando ser só dele

ALINE (sorrindo)
é sim

Ela passa sua mão carinhosamente na cabeça dele e eles se beijam meio sem grassa. Então o lance esquenta e eles começam a se abraçar e se beijar mais forte em outros cômodos do apê até transarem em algum lugar bonito, se é que existe lugar bonito numa construção.
Já se vestindo, eles parecem normais de novo, sem intimidade, mas estão bem em seus rostos

ADOLESCENTE
Esses dias eu pensei que você é minha droga sabia...
(ela estranha e ele completa)
No bom sentido da palavra. Você me tira desse mundo quando estamos juntos

ALINE (direta)
E não é isso o sexo

Eles riem concordando e logo voltam a ficar sérios um com o outro. Existe uma melancolia que é sempre presente depois de tudo que rola entre eles.

ADOLESCENTE
O que você vai fazer amanhã à noite?

ALINE
Sair com meu namorado

ADOLESCENTE(off)
Há de se entender, os anjos também amam

Eles já estão vestidos e em pé para se despedir quando ele fala.

ADOLESCENTE
320

ALINE
320 o que?

ADOLESCENTE
É o número de vezes que a gente vai transar se usar cada cômodo dos apartamentos desse prédio

ALINE (naturalmente)
legal.

O cara dá uma andada até a sacada enquanto diz

ADOLESCENTE
Não é o que devia importar. É só um número. As pessoas não deveriam ser tão exatas como são os números...superficiais como uma equação...

Ela se aproxima dele o abraçando por trás.

ALINE
Eu não ouvi. O que você disse?

ADOLESCENTE
Besteira minha, te vejo de novo essa semana?


FIM







AMOR EM ÓLEO
ROTEIRO ESCRITO EM MAIO DE 2004














1. INT/ SALA / DIA

Grande angular para enquadrar de perto um homem e manter a profundidade de campo. Temos um cara sentado, veste um gorro e uma camiseta velha e suja que tem a gola esgarçada, ele está sujo de tinta no pescoço e no cabelo e mantém um olhar de análise, meio que meditando no espaço que vê. Seu olhar nunca é direto para lente, ele está pensando am algo que ainda não vemos o que é. Ele tem um olhar de melancolia em sua concentração. Fica por um longo período nessa mesma posição. Ouvimos algum barulho de alguém na cozinha, mexendo em pratos e copos. Entra na sala, por detrás dele, uma mulher que se abaixa para pegar uma pasta sobre uma mesinha de chão. Ela passa pelo quadro da cena e sai por um corredor que vai para outro lugar da casa. O cara continua olhando para frente. Então se inclina para apanhar algo que está ao lado da câmera. Vemos só parte dela agora, um pouco de seu rosto e uma fumaça espessa vinda do cigarro que ele fuma. A mulher entra novamente na sala, a vemos por sobre o ombro dele caminhando para perto dele e deixando algo ao seu lado saindo logo depois sem se falarem nada. Ela está bem arrumada, roupa de frio, saindo para o trabalho. Ela sai novamente da sala e o cara volta para posição que estava no inicio. Sentado. Olhando para frente e fumando seu cigarro que quase cai de sua boca. Ele então apanha um painel de tintas e quando vai colar o pincel na tela a cena abre.
No plano aberto vemos que ele está pintando um quadro que era “subjetivamente” o quadro registrado pela câmera. a cena fica nesse plano por um tempo grande até o vermos de perfil, bem próximo e olhando a tela. Com o cigarro ainda caindo de seus lábios, levanta o painel de mistura de tinta que tem um bilhete dentro. Plano detalhe dele levando o pincel até as tintas. Lemos: “Volto na hora de sempre. Vamos conversar”. A cena volta para o mesmo plano inicial e termina após o cara levantar seu rosto que via as tintas e volta a ver seu quadro. Fumaça.

2. CINEMA EXPERIMENTAL

Vemos detalhes de um quadro. As digitais de alguém tocam na lente. A cena vai rolando e vamos vendo detalhes de várias pinturas que tremem no quadro. Tudo bem rápido passando em quadro com uma trilha pancada de fundo. As cenas vão ficando mais calmas e aparece o título na tela:
“Amor em óleo”.

Tela branca alguns segundos.

VOZ DE HOMEM
Eu não entendo onde está o erro.

3. INT/ BAR DE CASA/ NOITE

Vemos a cena. O casal está sentado em bancos altos de balcão de bar, se olhando de frente. No meio deles há um “balde” bonito com gelo e dois vinhos. Os diálogos são espaçados, demoram a completar suas falas se olhando enquanto bebem e fumam um baseado. O cara veste sua camiseta suja e bermuda e a mina uma blusinha e uma calça larga de moletom.

PINTOR (sorrindo malicioso enquanto sopra a fumaça do baseado)
Saca, é tudo perfeito e, por que precisa ser diferente?

ILANA(fala tragando)
Não é ser diferente... é só ser igual com mais conversa. Eu quero saber o que você tem feito.
“Me gusta” ouvir sobre sua pintura. O que você pensa enquanto fica sentado muitas horas olhando e olhando e pintando

PINTOR
Eu já falei o que sabia até o momento em que estou. Agora eu espero... é sempre assim.(pausa pro vinho)
Acho ruim falar enquanto vou fazendo porque pode mudar o que eu quero se você começa a me perguntar...
(ela faz um gesto de negação balançando o pescoço, ele continua...)
Sei que não é o que você vai fazer, mas espera um pouco para eu te falar tudo.
(Ele abaixa a cabeça, quase entre as pernas dela. Parece bem bêbado).

ILANA
Ontem eu almocei com um casal do escritório... (assopra a fumaça)
Gente legal.... e foi engraçado (ela expira um suspiro de quem vai rir e pára)
Ela começou a cobrar o cara para ele não levar o trabalho dele para casa. Eles estavam quase transando no tapete e tiveram que parar porque ia amassar umas planilhas que o cara tinha levado para lá. Achei legal a descontração deles.
(ela fica um pouco mais séria)
Pensei que seu trabalho está sempre em casa...

PINTOR
É verdade... isso te incomoda?

ILANA (ela passa a mão pelos cabelos dele)
Não. Bom, às vezes. Acho que eu tenho um pouco de ciúmes dos seus quadros...
Você olha mais tempo para eles do que para mim?

PINTOR
Não é verdade, agora eu estou te olhando (ele levanta seu rosto e olha para o rosto dela ainda por entre suas pernas)

Eles ficam um tempo rindo da situação

ILANA
Acho que a gente é diferente mesmo.. nada de errado...(ela sorri)
Estou um pouco chata esses dias.

PINTOR
Eu gosto de você chata...
(Ele volta a ficar sentado de frente para ela)
Sabe que a conversa com seus amigos me fez ter de novo aquela idéia?
(Ele sorri tímido)
Esse lance de transar sobre o trabalho....

4. INT/ SALA DE PINTURA/ NOITE

Vemos uma grande parede branca. A cena fica um tempo parado nessa tela. Tem um pano velho e grande que cobre o chão do lugar.
O cara entra em cena e lança, de dentro de um balde, algumas tintas misturadas sobre a parede.

Os vemos de perfil encostando-se seus corpos apoiados na parede. O quadro só pega a parte da cintura dos dois.
Eles se beijam durante bastante tempo.

5. CINEMA EXPERIMENTAL

Vários rápidos planos correndo na tela de partes de uma transa. Muita tinta em tudo...
Termina...

CONTINUAÇÃO DA 4

Os dois deitados no chão olhando para o quadro que é o quadro da câmera por sobre eles (DE CIMA PARA BAIXO). Estão sujos de tinta e um pouco cobertos pelo pano que protegia o chão.

ILANA
O que achou?

PINTOR
Um belo quadro

ILANA
Falei de nós dois.(eles riem)
Está vendo? Você só vê seu trabalho (irônica)

Risadas...

PINTOR
Desculpa...
(sendo sarcástico)
...mas diferente dos seus amigos, a gente não teve que parar no meio...

ILANA
Sorte a nossa...
E, você acha que ele vende?

Corta para trás deles deitados e o quadro na frente. Uns desenhos bonitos, até...

PINTOR
Acho que não... o amor não serve como mercadoria.

ILANA
A gente pode tentar de novo.

PINTOR
É... pode...









AMOR EM ÓLEO
TERCEIRO TRATAMENTO, FEITO COM DANIEL ALEMAR - 29.07.2004






1 INT. ATELIÊ. MANHÃ
Um homem sentado olha direto para câmera. Um grande plano será mostrado fixo nessa mesma posição. Somente pelo olhar, sem gestos muito expressivos de quem está procurando, deve-se ficar claro que ele quer retirar algo de dentro, por trás da lente.
Ele fuma um cigarro quase caindo de sua boca e a cinza queima até cair sem ser batida em qualquer cinzeiro. Seus olhos estão com olheiras e ele veste uma camiseta vermelha desbotada e esgarçada na gola. Sua respiração é profunda devido ao seu cansaço mental e ele não tem expressividades vivas no rosto.
Por trás dele, Ilana, vestindo uma camiseta larga de pijama e carregando uma bandeja com um suco de laranja, torradas e bolo, senta-se em uma mesa e toma seu café da manhã. Ilana não está maquiada realçando mais ainda sua beleza natural e ela olha muito rapidamente para direção do homem. Deve-se evidenciar que eles estão distantes; brigados.
Quando o homem volta a levantar sua cabeça ele faz rápidos movimentos com sua mão direita come se cortasse o ar, delineando alguma coisa no espaço. Chega á sorrir enquanto realiza esses movimentos. Então, volta a ficar sem alegria e seu descontrole sentimental transparece nas contradições das suas expressões faciais. Ele tenta sorrir; chorar; gritar e não consegue.
Ilana se levanta retirando a bandeja e o que sobrou da comida. Essa cena abre para serem mostrados detalhes do ateliê. Vemos que é um local que além de servir de ateliê de pintura é a casa onde essas duas pessoas vivem. É um grande galpão de um apartamento sem paredes centrais e com as vigas de sustento aparentes com vista para o centro de uma metrópole. Mostram-se os sofás confortáveis, a grande tv com belas caixas de som ao seu lado, livros de arte, tudo dividindo espaço com alguns quadros que aparecem juntos ao resto da mobília.
Voltasse a ver o artista tentando realizar sua nova pintura. Ele faz traços sem muita vontade e expressividade. Ouve-se barulho de um secador de cabelo. Depois de um tempo médio, Ilana aparece na sala recolhendo com pressa alguns objetos e revistas espalhadas pelo chão. Ilana está elegante em um conjunto social. Seu penteado de cabelo é todo espetado, parece uma planta exótica. Ela deixa um bilhete ao lado do artista. Eles não se olham.
Ele dá uma rápida olhada para o pedaço de papel, se levanta, vai para o centro da sala e arremessa a paleta de tintas na tela que estava pintando.
Na tela atingida pela paleta com um esboço inicial de uma nova pintura as tintas que o homem arremessou escorrem. Detalhe do bilhete que diz: “Quero conversar. Não dá mais para ser!!”
Em outro lado do ateliê há um monitor grande de um computador. Na tela do micro há várias janelas abertas e minimizadas (de acordo com a estética escolhida) de diversos sites da Internet. Deve-se ficar claro que a pintura estragada pelo homem era um esboço abstrato dessa tela de imagens virtuais.
Vê-se o homem sentado no chão do apartamento, apoiado em uma das vigas de sustento e cercado pelas grandes janelas que dão para o centro da cidade. Ele emite uns gritos estranhos, assustadores, tanto que engraçados. Após um tempo, ele apóia sua cabeça entre seus joelhos, fechando uma concha com suas mãos por sobre sua cabeça, encolhido como uma criança de luto.

2 INT. ESPAÇO DE VISUAL INFINITO
Quando ele volta a levantar seu rosto e abrir seus olhos, saindo da posição em que estava no ateliê, ele se espanta por estar dentro de um espaço branco e infinito, não temos proporção de onde começam e terminam suas paredes. Ele veste uma capa de tecido leve todo branco que cobre seu corpo do pescoço para baixo. Então, ele se levanta procurando algo e nota que a sua volta não há nada além de um pano inteiro vermelho, um vermelho muito forte, cobrindo um móvel. Ele se aproxima vagarosamente e pega a ponta do pano descobrindo o objeto que é um espelho. E tudo o que ele continua vendo é seu reflexo no espelho e o branco de fundo por algum tempo.

LETREIRO CLÁSSICO EM FUNDO PRETO
“Certos animais exóticos exibem-se em uma dança de provocação antes do acasalamento. Contudo, é lei natural que eles não se matem antes de consumarem o ato.”
Charles D.

3 INT. ATELIÊ. NOITE
Ilana veste uma saia preta longa e uma blusinha prata de tecido leve que delineia seus seios. Ela escolhe algum som para tocar no rádio que já tocava alguma música. Está nervosa e joga alguns encartes de cd no chão. Vemos de fundo, pelas janelas, uma cidade de prédios iluminados. Grandes letreiros luminosos de propagandas diversas.

ILANA (gritando)
Na boa. Não mistura todas as coisas nessa sua cabeça maluca por que mostrei uma coisa simples que você faz. Por favor. Estou tentando conversar e não to entendendo nada do que você fala.
(ela pega mais leve no tom de voz)
eu só quero te ajudar a saber o porquê você não se senta lá, como das outras vezes que te vi e pinta...
O pintor, deitado no chão, abre e fecha a geladeira com um de seus pés. Faz de novo para ver o rastro da luz que sai de dentro do refrigerador e parece não estar muito preocupado com o que ouve. Ele veste uma calça jeans sem sapato e uma camisa colorida, seu cabelo está bem desarrumado. A luz da geladeira, quando aberta, ilumina a figura de Ilana e ele brinca com esse efeito.

PINTOR
Não sei o que é minha arte. Ela é sem base... de um mundo fluente.. minha arte é vaga, sai de uma cabeça doente
A música parou e começou a tocar uma outra escolhida por Ilana. Ela se aproxima dele, ainda deitado, e apanha uma garrafa long neck de cerveja de dentro da geladeira.

ILANA (de cima dele e o olhando)
Sem essa, você sabe o que faz.
As pessoas gostam e compram, então é bom.

PINTOR
dinheiro; seguro; casa; uma mulher...
cheguei e sai no nada. (Ilana senta irritada no sofá virada para ele)
Ela vende. e daí?

ILANA (irritada, com mágoa)
Escuta uma coisa seu babaca egoísta. Não me inclua nas coisas materiais que você consegue com a porra do seu dinheiro. E se estar comigo é nada...
Ele vira-se e apóia suas costas na porta da geladeira permanecendo sentado no chão.

PINTOR
Não foi o que eu quis dizer, desculpa....
(depois de um tempo em que ambos parecem refletir)
...às vezes, quando sei que estou bem, estou numa paz estranha, tudo que não tenho agora, eu peço para que algo me congele, me tranque naquele momento, sem querer criar, sem querer nada, só ali a dali eu sei que vou fazer algo bem feito...
O artista se levante e sai de cena.

PINTOR (só voz)
Queria que alguém pudesse ir até lá, entrar nesse nó de massa pensante e me explicar o que há, e se não puder me trazer um quadro menos banal, que exploda tudo. Eu pagaria para isso...

ILANA
Porque não vai a um médico, sei lá, um psicólogo.

4 INT. BANHEIRO. NOITE
Ele está em um banheiro de época antiga, cerâmica de estilo clássico. Em frente ao espelho ele responde.

PINTOR (bem nervoso)
Porque não é o que eu preciso...
(ele fala baixo para ele mesmo se lamentando com seu reflexo)
se você que vive comigo não vê isso...para quem eu vou explicar?

ILANA (só voz)
Por que você tem que gritar?

PINTOR
Como vou ficar calmo com esse tanto de merda que você fala?
Ele toma um comprimido de um pote que tira do armarinho por trás do espelho.

5 INT. ATELIÊ. NOITE
Ilana se levanta e começa gesticular com as mãos enfatizando o que diz.

ILANA
Vai tomar no seu (/). Tudo que eu digo é besteira...
mas ele é genial. Olha que linda exposição o nosso astro arrumou.
Foda-se essas porcarias que você faz. To cansada de ouvir sobre elas...
Um gênio não deveria ficar tanto tempo sem criar. Se é que você sabe pintar? Até quando você vai se esconder atrás dessa magia que fala
(ela fala com certa restrição)
Acho que é tudo falso. Invenção para chamar a atenção dos outros ...
Ilana sai dançando naturalmente engraçada pela sala satisfeita por ter desabafado tudo que queria dizer e continua
...eu sou o artista, me esperem que vou voltar, continuem me amando
Seu sonho é ver sua pintura num chinelo de dedo ou numa capa de caderno.

Ele está em pé e com suas mãos aperta seu crânio. Vai para perto dela e pára encarando sua mulher. Estão quase se tocando. Sua mão parece querer espremer o cérebro dela, ele gesticula que vai fazer, mas só fechou sua boca, da Ilana. No fundo vemos os vários prédios iluminados da cidade.

PINTOR
primeiro: nunca me achei gênio
segundo: não diga que eu invento meu desespero
e por último, eu não falo onde você deve enfiar seu trabalho, então não me diga o que eu devo fazer com o meu.
A perna dela entre as pernas dele. Ilana passa sua mão por dentro da camisa dele e se aproxima para beijá-lo. O pintor a empurra no sofá e se afasta até uma janela olhando a cidade. Ilana está muito sensual, de pernas abertas, esparramada no sofá.

ILANA (meio tímida, mas sacana)
Esses dias um estagiário fez sexo com uma secretária sobre a mesa dela. Moleque safado. Transando sobre o trabalho

PINTOR
Você quer dar para ele?

ILANA
O que você acha?

6 INT. SEXO SOBRE A TELA. NOITE
Somente o rosto de Ilana suspirando em êxtase. Ilana de bruços, rosto colado e com suas mãos espalhando umas tintas na tela enquanto o artista a penetra por trás. Ilana com as costas no chão, suas pernas entrelaçam o pintor transando com ela. Detalhes das mãos e pés espalhando tintas sobre o pano que cobre o piso.

7 INT. ATELIÊ. AMANHECENDO
Um plano do alto mostra os dois abraçados na sala do ateliê sobre a tela pintada durante a transa.

ILANA
Não tinha você no meu quadro há pouco tempo... isso é estranho.

PINTOR
Isso é arte. Apreciar o que há pouco nem existia e que agora é só o que existe
(ele olha um pedaço de tela pintada)
Quanto vale essa transa?

ILANA
Arte barata. Seu besta

PINTOR
Ela ia ficar bem estampada em um caderno ou chinelo.
(risos)
Sabe o que mais gosto de termos feito dos sentimentos mercado?
Posso vender os nossos.














AMIZADE
ROTEIRO ESCRITO NO SEGUNDO SEM. DE 2003














SEQ 1- CASA DO CAESA- NOITE
Três moços estão sentados em um sofá. Tem uma mesinha de madeira na frente deles.
Tem alguém caído em um outro cômodo da casa.
Caesa se levanta e fecha o quarto onde está o cara morto.

CAESA (CAE)
Agora é nossa vez.

CORTA PARA.
*ANIMAÇÃO-SONHO DE CAESA-
Caesa está FUGINDO de alguém. O lugar tem uma paisagem bem SURREAL. Ele salta um muro a caí em um grande GRAMADO. Ele se esconde atrás de uma pequena árvore IMAGINANDO que está seguro. Um dos caras que o persegue pára e atira nele...

CORTA PARA
SEQ2 BACK- CARRO- NOITE
QUATRO jovens estão em um carro. Manu, Cae e Gordo já apareceram na primeira cena, mas agora parecem mais novos e menos acabados. Manu dirige, Caesa está do lado, VIAJANDO seu sonho, no banco da frente e FUMANDO um cigarro. Atrás estão o Gordo e Magrão.

CAESA
Cara, ai fora é uma GRANDE MERDA! De madrugada é até aceitável porque fica uma merda quieta, mas é só amanhecer que aparecem os VERMES, um correndo mais que o outro para garantir o seu PEDACINHO DE BOSTA.
Eu curtia ficar vendo esses merdas, mas eles tão me cansando.
Comer uma PUTA é tão NORMAL quanto escovar os dentes.
DROGAS, já é uma coisa besta de se fazer.
Não tem mais nada ai para curtir, só tem essa grande porra estúpida aí fora.

Ele aponta as ruas que estão DESERTAS. Seus amigos zoam com ele mas permanecem CALADOS, OBSERVANDO a cidade vazia e aceitando a idéia.
Manu começa a dar um GÁS NO CARRO. Ele é fechado por outro carro em alta velocidade, se perde em uma curva e RODA alguns metros em um canteiro de grama. O carro pára bem próximo á um GRANDE BURACO.
Cae começa a rir e os outros acabam entrando na idéia.
Estão felizes; vivos de novo.

CORTA PARA
SEQ 3 BOTECO NOITE
Cae, Manu e Magrão FUMAM cigarro, BEBEM cerveja e alguma bebida mais forte. O Gordo está comendo um LANCHE NOJENTO de miúdos de algum animal.

CAE (falando estriquinado)
É o que a gente vai fazer! DESENCANAR do risco, do medo.
Vamos VIVER enquanto a gente ainda pode...
Vocês nunca tiveram vontade, tipo, se apoiaram em uma sacada de prédio e pensaram: É TÃO FÁCIL!
PORRA, se eu tivesse uma segunda chance, eu pulava FÁCIL.

MANU
Você quer fazer um acordo SUÍCIDA, CAE?

CAE
Sim, e se acontecer um lance ruim, os outros vão continuar ATÉ O FIM.

Cae está sério enquanto os dois quase riem.

MANU
Péra aí, seu louco...você acha que isso é sério, é isso?

CAESA
Talvez. E daí? Foda-se.
Vamos até o fim.
É o que a gente faz de um modo MAIS cretino e MENOS prazeroso.
Qual é. Esse acidente foi MUITO LOCO. Há um tempo eu não pirava assim...diz aí?

Cae olha para Magrão.

MAGRÃO
Você quer saber o que eu acho?... estou dentro! FODA-SE.
Fodam-se os vermes, meu brother.

Caesa abraça Magrão como um IRMÃO mais velho que se diverte com o pirralho.

CAE (para gordo)
Engole essa PORCARIA LOGO e responde, BELUGA. Que nojo isso, cara!
Você sabe o que tem aí dentro? Deve te fazer muito mal.
E aí, você tá dentro da parada?

GORDO
Vamo aí!

Manu fica CALADO.

VOLTA PARA
SEQ 1- CASA DE CAESA –NOITE
Os quatro estão em volta da mesinha de madeira com um 38 em cima. Suas aparências mostram que passaram alguns meses, cabelos mais compridos e barba. mesma aparência da cena inicial.
Caesa fala para Manu:

CAEÇA
Você é o primeiro, cara. Foi o SORTEIO.

Manu se levanta e entra em um quarto na frente deles. Senta em uma cadeira e leva a arma ao ouvido.
Manu começa a suar e dá um disparo para o LADO e não na sua CABEÇA.
SEM BALA.
Ele volta para a sala.
Magrão se levanta.

MAGRÃO
É, sou eu.

MANU
Isso vai dar merda, meu. A gente tá pirando...

Magrão continua até o quarto, dispara.
COM BALA.
Ele caí.
VOLTA PARA CENA INICIAL.

CAESA
Agora é nossa vez.

Caesa se levanta, fecha a porta do quarto onde está Magrão.

CAESA
A gente tem um trato! ATÉ O FIM, cara.

Caesa segue RÁPIDO até um outro quarto, mexe em algumas gavetas e pega um frasco com uns COMPRIMIOS. O ambiente é mórbido, mas já era desde o começo. Agora, só há alguém realmente morto em um quarto. Cae volta com três copos “americanos” com alguma bebida.

CAE (ainda estriquinado)
Um desses copos tem algo ESPECIAL. Uma substância que eu guardei para algum EVENTO. Ela vai corroer um de nós em dez minutos. Escolham!

Manu e o Gordo pegam dois copos só para ver até onde isso vai.
Cae VIRA o copo que sobrou na mesa e sai alucinado até a pia da cozinha, molha sua cara. Os dois ainda estão na mesa. Cae OS ENCARA da cozinha intimidando. Eles bebem também.
Agora, os três estão SEM CONTROLE, vão rapidamente da loucura à alegria.

GORDO
Foi a MELHOR BEBIDA que eu já tomei na minha VIDA.
(surtando)
Dez minutos, dez MALDITOS minutos.

O Gordo arremessa o copo violentamente na parede
Manu se levanta e empurra Cae.

MANU
O que você fez, seu louco...QUEM de nós? Quem bebeu a merda?
O que nós fizemos.
Vou SAIR, eu não vou MORRER aqui...

Manu segue para porta de saída surtado.
O Cae vai até o quarto e pega uma mochila com cordas de escalada antes de levantar o Gordo e sair.

CORTA PARA
*SONHO DO GORDO. ANIMAÇÃO.
GORDO ESTÁ NADANDO JUNTO COM UNS PEIXES, SURGEM UMAS SEREIAS, ELE COMEÇA A SUFOCAR E AS SEREIAS SE EXPALHAM.

CORTA PARA
SEQ 4 - CARRO - NOITE
O Gordo está ROXO e ASFIXIANDO em desespero no banco da frente. Manu começa a socá-lo.

MANU
MORRE seu desgraçado. FODA-SE, morre LOGO gordo cretino.

O Gordo AGARRA FORTE e não larga o braço de Manu. O carro pára. Cae desce pela porta de trás e SOLTA O CINTO de segurança do Gordo puxando-o para fora do carro . Manu CHUTA Gordo para fora, fazendo-o soltar seu braço. Gordo está morto no chão.
Cae fica ao lado do corpo de Gordo. Manu se afasta do carro, começa a VOMITAR, leva as mãos á cabeça desesperado.
Cae pega a MALA com as cordas. Eles estão em uma PONTE suspensa.

CAE
Vamos, falta pouco.

MANU
O que você planejou para mim, seu doente.

CAE
Foda-se você. Já tava tudo PERDIDO desde o começo e é por isso que você ta aqui.
A gente não controla a vida, não pede para viver essa merda toda, mas pode jogar com a MORTE.
Esse é nosso pequeno PODER, e eu não vou deixar o meu pro ACASO... você pode ficar, só que não vai ESQUECER isso tudo que aconteceu. Ta sabendo, você vai viver com isso na cabeça...

Porra, só queria que a gente se divertisse de novo. Queria que a gente curtisse como nas antigas, lembra meu brother?

MANU
Isso não é um SONHO seu louco maldito. Eles... eles estão...

Manu não consegue dizer mortos. Cae segue até ele e lhe ESTENDE a mão.

CAE
Vamos cara, eu te AJUDO. A gente consegue. SOMOS FORTES, mas do que todos eles.

Os dois seguem andando. Cae vai à frente com as malas até uma BEIRA da ponte alta. Ele vai amarrando as duas pontas das cordas na ponte enquanto fala. As cordas estão enroladas e NÃO dá para notar diferença entre elas.

CAE
Uma dessas cordas é muito comprida, a outra, TALVEZ não chegue lá no chão.
É nossa vez! Não seria diferente com o Magrão ou o Gordo. A gente deve isso a eles.
ESCOLHE a sua
(olhando para Manu)
Você acha que a gente vai ter uma SEGUNDA CHANCE?

Eles sobem no parapeito da ponte.

MANU
Isso importa?...
Até onde chegamos, você conseguiu.

Manu amarra uma das cordas na cintura. Cae faz o mesmo. Eles estão quase saltando.

CAE
Pulamos juntos.
Você MANTÉM o trato?

MANU
Sim.

Cae não espera e pula. Ele conhece as cordas e está morto no chão.

Manu desamarra sua corda e senta no parapeito.

FUNDE PARA
*SONHO DE MANU. ELE ESTÁ CAINDO.
CAI EM UMA CADEIRA. DO SEU LADO, SEUS TRÊS AMIGOS SE DIVERTEM EM UMA PRAIA, TOMANDO UMAS BREJAS E FUMANDO UM... ... ... ... ...

Volta para externa na ponte.
Manu segue andando pela estrada escura deixando tudo para trás.

NARRAÇÃO OFF
“Amizade: 1. Sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por laços de família ou por atração sexual.”














UMA OUTRA CHANCE
ESCRITO NO SEGUNDO SEMESTRE DE 2003














ATO PRIMEIRO: UM PAPO CABEÇA
INT/ SALA ESCURA

Estamos em uma sala com visual antigo, chego a sentir o cheiro dos seus anos de uso. Os tacos do piso são de madeira. Não vemos as paredes e as únicas luzes que nos guiam saem do teto refletindo sobre um cara de uns vinte e cinco anos, sentado em um banco, e um menino, de uns cinco, sentado em uma cadeira elétrica. Acredito que tenha um pouco de fumaça embaçando o ar, vemos uma cena de teatro. O menino é bonito e tem um olhar vago e triste, está com os braços presos na cadeira e em nenhum momento os força para tentar escapar ou diz alguma palavra. O cara está lhe dizendo coisas sérias e de modo sensato, o que é adverso para uma criança, mas... Ficamos um tempo sem ver o rosto do homem, ele olha para os lados, leva as mãos à cabeça raspada enquanto fala meio fora e dentro da luz.

- Você deve imaginar porque estou aqui. A verdade é que eu não deveria estar falando com você sendo que você sabe quem eu sou. Você desacreditou de toda forma de ilusão que eu lhe entreguei para que não me encontrasse, e, acabou quebrando as regras. Agora, só acredita no que eu digo.

Vemos o rosto do cara. Ele tem o mesmo olhar vago do menino enquanto o olha.

- Isso é perigoso porque eu não gosto de você, não respeito o que você é e estou ligando a mínima para sua dor. Mas eu não posso matá-lo, pelo menos, não lá fora.
Você me pergunta se você está morto?
Viver é sentir a vida.Você não vive se eu não te ajudar e, de certo modo, eu preciso de você. Estamos contaminados pelas Leis que estão aí fora e, o problema é que eu não as respeito.
Viver é acreditar em alguma coisa. Você perdeu esse algo e agora acha que está morto.

O cara se levanta e vai chegando devagar até a chave de força enquanto diz:

- Não estamos tão errados, estamos chegando onde eu quero. Os sentimentos fazem parte da vida e não da morte. Você não vai sentir a morte, vai sentir o fim da vida. Não pense errado, eu sou sua morte e sua vida. Você precisa de uma outra chance, e essa, é a única que eu possa te dar.

Ele liga a chave de força.

ATO SEGUNDO: UM BELO ASSALTO
INT/ AGÊNCIA DE BANCO/ DIA

Se Magrão, um rapaz de uns vinte anos a de fala engraçada, estivesse entrado na agência do banco minutos antes, não estaria irritado por estar travado em uma dessas portas giratórias da entrada. Ele não estranhou o fato dos caixas eletrônicos, na parte de fora da agência, estarem vazios. Ficou até contente porque não estava nem um pouco a fim de esperar na fila dos caixas. Ao seu lado, dentro da agência, está o guarda responsável pelo movimento da porta. O guarda observa um cara, distante deles, ao lado do gerente colocando bloco de notas dentro de uma sacola. O guarda está tão tenso que nem escuta as reclamações de Magrão.

- Quanto tempo eu vou ficar aqui, ein? Mais que merda, meu. Eu tenho mais o que fazer.

Magrão cola sua identidade do lado de dentro do vidro.

- Aí cara, sou eu. Não está ouvindo nada, né? Legal, eu vou falar sua língua. CPMF, tarifa mensal, cheque especial?

Magrão bate forte no vidro. As pessoas olham assustadas lá de dentro. O guarda diz:

- Cala essa boca fodida! Nós estamos sendo assaltados e essa porra de porta travou.

Magrão olha para dentro do banco entendendo a situação. Não há muitos clientes na agência, todos, como os funcionários estão parados, provavelmente, porque o gerente explicou que se ele não deixasse aquele homem ao seu lado levar a grana, sua família seria morta. Estamos perto do bandido:

- Eu não quero machucar ninguém. Eu e o doutor aqui vamos sair e é só vocês ficarem como estão que nada vai acontecer com vocês e com a família dele.

O bandido olha para uma garotinha que está agarrada na mãe próxima dele. Na mesa em sua frente tem um pote com alguns doces. O bandido pega algumas balas e a sacola sobre a mesa antes de seguir com o gerente.
Do outro lado, Magrão diz para o guarda:

- Abre logo essa porra dessa porta fodida! Eu vou sair e não vai ter problema, certo.

O bandido pára em frente da garotinha.

- Você quer umas balas?

Ela responde com a cabeça que sim e o cara enche a mão dela de doces.
Eles seguem até a porta giratória que se trava quando ele tenta empurrá-la. A porta tem três vãos. O bandido está em um que quase completa o movimento inteiro do giro e Magrão está ao lado, no outro vão. O bandido sai da porta e dá uma coronhada no guarda que caí no chão. O ladrão está em cima dele apontado-o a arma.

- Você não precisa morrer, e só abrir a bosta da porta.

O guarda lhe entrega o controle esticando sua mão.

- Por favor... está travada.

O bandido aperta o botão. Tenta passar. Travada.
Ele dá três disparos no vidro. Magrão caí no chão. O vidro ao seu lado contém três marcas de tiro. Blindado.

- Que porra! Eu disse que ninguém iria se machucar e agora vocês cagaram em tudo. Você será o primeiro doutor.

Ele encosta a arma na cabeça do gerente. Um outro guarda diz:

- Por favor, não faça isso. Tente com o meu controle. Por favor, eu vou me aproximar com calma.

Aporta destrava. O bandido passa com o gerente e olha torto para Magrão que está chocado e impede com seu corpo caído que a porta gire. Ele se arrasta até o outro extremo do vidro liberando a passagem.

ATO TERCEIRO: COMO TUDO SE JUNTA
INT/ APARTAMENTO DO RONALDO/ DIA

Seu Sebastião trabalha na portaria do prédio no qual moram o Ronaldo, uns vinte anos, com seus pais no primeiro andar, e dois andares acima, mora Manoel, uns vinte e cinco. Moram mais pessoas mais esses são os que nos interessam. Ronaldo está voltando de mais uma entrevista de emprego e acaba de descobrir por seu Sebastião que seu vizinho que estava sumido fora assassinado.

- A polícia apareceu aqui de manhã para dar uma olhada no apartamento dele. O rapaz andava meio estranho mesmo...

Ronaldo apanhou as chaves com seu Sebastião e não ficou para ouvir o resto...
BACK: SÓ UM PENSAMENTO.

Se estivéssemos vendo o pensamento de Ronaldo, veríamos ele há cinco dias atrás entrando pelo mesmo hall e seguindo até o começo das escadas do térreo de onde pôde ver seu vizinho tretando com um rapaz estranho que saiu apresado, não sem antes lhe encarar enquanto descia as escadas.
Voltamos.
Ronaldo está sozinho parado no local de onde viu a cena. Alguém lhe chama. É o Magrão que vem entrando pelo prédio.

- Fala, meu brother.(Magrão)
- E aí, tudo certo?
- Mano, nem te conto. Acabei de ver um assalto no banco, o cara meteu três tiros do meu lado.
- Você tá zoando?
- Não velho. Eu fiquei preso na porta giratória e o puto ficou ali do meu lado, há um palmo de mim.
- Mas e aí, morreu alguém?
- Por pouco não, mano. O cara deu uma pancada na cabeça de um guarda na minha frente e mais um segundo, um segundo que fosse iria atirar na cabeça do homem que era seu refém. Eu estou pirando até agora bam bam bam...

Eles sobem até a porta do apartamento de Ronaldo. Ronaldo aponta a porta do vizinho enquanto vai falando.

- É, bem vindo ao dia dos mortos. Mataram meu vizinho, o cara que morava aí do lado.
Eles entram no apartamento.

- Louco meu. Aí no apartamento?
- Não. Ele estava sumido e acharam o cara morto, ainda não sei onde.
- E foi tiro?
- Nem sei. E sabe o que é pior: Eu estava vindo um dia desses para casa e o vi o cara discutindo com um carinha muito estranho. Imagina se esse louco é o cara que matou ele e encana comigo.
- Não, perái. Você viu o cara e ele te viu.
- Foi bem rápido.
- Nossa que treta, que treta. O cara do banco também me viu, eu estou fodido, mano. Nem tinha pensado. Vou ficar um tempo sem sair.
- Calma Magrão. Os caras deviam estar tão na nóia que nem vão pensar na gente.
- Eu preciso de um baseado. Não, de uma mulher e cerveja, rápido.
- A mulher eu não posso arrumar, mais o fino tá aí na gaveta.
- Dá hora. Ow bem louco esse som desses caras. Empresta esse cd para mim.
- O cd é do Manoel, cara. Vou ligar lá e ver se ele está a fim de fumar um com a gente.

Ronaldo está interfonando da cozinha enquanto Magrão se recupera sentado no sofá da sala. Magrão cola o ouvido na parede como se tentasse ouvir alguém no apê do lado.

- Fala cara. Desce aí em casa. Mataram nosso vizinho, mano.
- E aí. Mataram como? (Manoel off)
- Cara, você nem sabe das tretas!
- Dá um tempo que eu vou levantar e já vou. (Manoel off)

- O Ronaldo, lembra daquela idéia que a gente estava tendo de sair dessa vida ordinária. É agora, cara! Esse assalto me acordou, vamos meter com umas minas, mano. Sair para quebrar tudo.
- Nossa, vamos agora.

Ronaldo segue para porta, Magrão segue apressado atrás dele. Ronaldo pára rindo do cara.

-Cara, você está noiado mesmo.
- É sério, mano. Esse lance de morte, tal, tenho maior curiosidade, mas eu gosto da vida. A gente tem que encher a cara, usar umas drogas e comer umas putas antes que um maluco meta uma bala na gente.
- Cara, eu estou bem com minha mina, aliás, daqui a pouco ele vai ligar.
- Que mina mano! Olha o mundo de mina aí fora.
- Calma, velho. De noite a gente sai em alguma balada. Tá a fim de uma bolacha?

Manoel abre a porta. É o cara da primeira cena, o maníaco da cadeira elétrica na nossa frente. Magrão dá um abraço exagerado no rapaz.

- Puta cara, maior saudade, a gente precisa sair mais.
- Parece que alguém dormiu bem.(Manoel)
- Não mano. Eu acordei de um sono profundo. Estava no banco e um louco meteu três tiros do meu lado e deu uma pancada em um guarda na minha frente. Agora a gente está saindo para zona, é isso aí, vamos cair na vida antes que a morte nos leve...

Os três vão saindo. Magrão segue abraçado a Manoel com sua fala engraçada. Logo atrás, Ronaldo e sua bolacha de água e sal.

ATO QUARTO: “QUEM VAI FICAR, QUEM VAI PARTIR”- Raulzito.
EXT/ ESTAÇÃO FERROVIÁRIA/ DIA

Os três amigos estão fumando um baseado em uma estação de trem abandonada. A luz entra por pequenas frestas nas janelas. Alguns pombos se espalham pelo lugar. Ronaldo joga umas migalhas de bolacha para os pombos. Magrão sempre falando:

- Eu queria saber o que rola quando a gente morre. Imagina: pum! Já era, acabou. Nem pode ser.
- Você quer saber se a morte é ponto e vírgula, virgula ou ponto final?

Magrão não entende muito o que Ronaldo quis dizer mais afirma:

- Só meu, a morte deve ser a maior loucura.
- Você devia era pensar mais na vida, cara. Existe um monte de coisa por aí mais interessante que viajar na morte. Coisas que causam mais inquietação e que não tem respostas. Manoel lhe diz enquanto observa os trilhos abaixo dele.
- Não vem cortar minha viagem. A morte me surgiu como uma luz e agora eu sou seu pregador.

Os caras riem da frase profética de Magrão. Silêncio no momento. Até os pombos param para ouvir o que Manoel irá dizer

- Eu não tenho tido bons sonhos. Eu tive um sonho estranho hoje. Falava algo sobre morte, não me lembro bem. Nossa eu me lembro de me matar. Sim era eu mais velho me matando criança em uma cadeira elétrica e o mais louco é que eu me senti bem para caralho. Aquele choque corria meu corpo inteiro como se estivesse tirando algo de mim, limpando o que eu não gosto. Nossa eu me matava, foi um acerto comigo mesmo, parecido com o do livro que estou lendo. Que viagem. E eu acordei maior bem, me sentia feliz. Saca, foi uma descarga de adrenalina. Queria ter um desse por noite. Mas então eu voltei à dormir e só tive pequenos sonhos bizarros de novo. Que porra! Por quê as coisas não são como a gente quer ?

- Você é um louco fodido e nós precisamos de uma puta. Vamos tocar um puteiro, putada uhuhuhh. Hoje de noite na balada, usar umas drogas, vou dormir na sua casa Ronaldo, cagar na sua privada, comer o pãozinho quente com manteiga da sua mãe...

Magrão continua falando e metendo com o ar como se estivesse uma mina na sua frente. As luzes se apagam.

ATO QUINTO: UMA LUZ ENTRE AS LUZES
INT/ BOATE/ TANTO FAZ

Estamos dentro da balada mais colorida da história. Luzes de todas as cores e fumaça, muita fumaça. Qualquer careta ficaria pirado ali dentro. Um inferno de dois andares. Na parte de baixo os anjos decaídos se acabam na pista de dança. No andar de cima, encostados no bar, estão nossos três cavaleiros magos pirando com suas bebidas e com uma deliciosa garçonete que os serve.

- Eu tenho um pacto com o capeta. Eu falei com a dona morte, e, se você não sair comigo hoje ela vai vir aqui te levar (Magrão para garçonete).
- Só que, meu namorado é o demônio na cama e eu nem quero outro capeta...(garçonete)
- É, rodow meu irmão. (Ronaldo para Magrão)
- Se acha. Esse foi só para esquentar. Essa noite eu me acho, cara. Vai vendo.

Magrão vai saindo para o corredor e esbarra em uma moça. Começa um papinho do tipo: “ow desculpa...”

- E aí mano. Que cara é essa? Parece que nem tá curtindo a balada.(Ronaldo para Manoel)
- Até estou, mas meu lance é ficar aqui de boa olhando...
- Que isso, brother! Sai atrás da mulherada, dá uns beijos...
- É, até que o dia está bom para isso. Vou ver se alguma me agarra, se não eu apelo.
- Vamos apelar! Minha mina não pode nem saber que eu vim, ein. Cuidado comentar perto dela.
- Certeza.

Eles saem para dar um rolê pela casa. Manoel se perde e encosta-se a um canto. Acaba encontrando o que no fundo de seus desejos procurava. Helena está muito bela em seu vestido preto aberto na costa e salto alto. Helena tem vinte dois anos, é loira, visual sem muita frescura o que salienta mais ainda sua beleza. A moça está dançando perto de um cara no piso de baixo. Manoel fica a olhando disfarçado, mas ela acaba o vendo e o cumprimenta com seu olhar.
Temos nossa luz.
Bebidas, luzes, flashs de tudo que é possível...Paramos em Magrão que encontra Manoel no bar.

- Puta merda, mano. Nunca tomei tanto fora na vida.
- Eu prefiro nem arriscar.
- Qual é a dessas vadias?
- Tente não chamá-las de vadias antes de transar com elas, pode funcionar.
- É isso, cara. Você é o rei. Vamos beber uma e vazar para um puteiro. Lá, eu sou o rei.
-Você é um doido engraçado, cara. Vou ao banheiro que tá foda.
- Vai lá.

Indo para o banheiro, Manoel cruza com Helena.

- Oi, como você está?(Helena para Manoel)
- Vou indo.
- E a facu, o trampo?
- Tudo bem.
- Bom, eu preciso ir, a gente se vê por aí.
- Legal.

O cara entra em um banheiro bem louco. Pára em frente ao miquitório e dá um mix olhando para o teto. As luzes se apagam.

ATO SEXTO: UM ACIDENTE
INT/CARRO/NOITE

- Mais uma noite que eu vou dormir sozinho, tá foda viu meu.

Magrão põe a cabeça para fora do vidro e grita.

- Mulheres, mulheres...
- Põe esse cabeção para dentro do carro e sossega. (Ronaldo)

Um carro passa no gás e assusta Magrão. Ainda dá tempo dele se sentar no banco de trás e ver o mesmo carro se despedaçando na frente de um caminhão no cruzamento.

- Caralho! Freia isso cara (Manoel)
- Nossa que porrada absurda(Magrão)

Eles passam do lado do carro destruído. Um cara sai zonzo e deita no asfalto ao lado do carro.
ALGUMAS CENAS: Ronaldo falando com o guarda, as pessoas sendo atendidas na ambulância, Manoel e magrão sentados na sarjeta...
FADE

- Vamos nessa. Eles vão ligar e depois a gente vê o que faz.(Ronaldo)
- Nossa que bosta. O cara estava morto, mano.(Magrão)
- Eu vou voltar andando, estou perto de casa. (Manoel)
- Desencana, cara. É tarde.(Ronaldo)
- Fica sossegado. Eu só quero ficar um pouco de boa, dar uma andada.
- Vamos aí cara, o que você vai fazer?(Magrão)
- Vai nessa brother, amanhã a gente se fala.(Manoel)
- Falou, fica na boa, cara.
- Sossegado. (Manoel)

Manoel segue andando na madruga e senta em uma calçada na frente de um prédio. Veremos esse prédio de novo. Ele fica ali um tempo olhando o chão; seus pés; à noite...

ATO SÉTIMO: UM BRILHO NA NOITE
INT/ NOITE

Vemos em um apartamento uma moça tirar seu vestido e ficar só de calcinha preta. Ela segue até uma cômoda e guarda o brinco que estava tirando de sua orelha dentro de uma gaveta. Retira da gaveta um fino que está ao lado de uma foto que ela pega também. Acende o baseado e senta em um sofá. Vemos que é seu retrato. Atrás dele está escrito: “meu amor por você é a única verdade que tenho - Manoel 13/ 07/ 2001”. A moça é Helena.

ATO OITAVO: VOCÊ TEM QUE AFASTAR SEU AMOR PARA LONGE
INT/ APARTAMENTO/ DIA

Manoel acorda perturbado. Dois andares abaixo e pouco tempo depois a campainha do apartamento está tocando. Ronaldo, se não estivesse andando, eu diria que ainda dormindo segue até a porta.

- Nossa cara, você sabe que horas são...
- Vocês querem saber se nós temos uma outra chance não querem, pois eu acordei com uma vontade de tentar. Vamos brincar de morte.
- Quê que você está dizendo, cara? Eu preciso dormir.

Ronaldo segue para cozinha. Manoel pega em cima do armário da sala uma arma e segue até um banheiro no corredor. Ele entra e se tranca sentando-se com a costa encostada na porta. Ronaldo que o viu passar com a arma na mão corre até a porta e não consegue abri-la.

- Magrão acorda, mano. O Manoel entrou no banheiro e está com uma arma, ele estava falando umas coisas de morte, meu...Abre essa porta, cara bam bam bam...
- Você tem outra chave? Magrão pergunta dando umas ombradas na porta.

De dentro, Manoel está sentado, as mãos espremendo a cabeça, os caras batendo. Silêncio. Manoel abre os olhos para ver desacreditado, sentado à sua frente na privada, com a berma arriada, balançando os pés que não chegam no chão, o menino da primeira cena. Ele lhe diz com o off do serInc adulto, afinal, são os mesmos.

- Você tem que afastar seu amor para longe.(“you`ve got to hide your love away” - LENNON/ McCARTNEY)

Manoel dispara em direção ao menino. A bala estoura o vidro do box do banheiro.
Ele sai do banheiro. Seus amigos estão encostados na parede olhando para ele.

- Eu só tive um sonho ruim. Voltem a dormir

Ronaldo vê o estrago e diz:

- O cusão maluco fodeu com o meu banheiro. Olha só!

- Foi mesmo. E ainda levou a arma do seu pai.


ATO NONO: PARA UM LUGAR MAIS CALMO
EXT/ CIDADE/ DIA

Manoel segue andando pelo centro movimentado da cidade grande. Uns planos abertos dele andando por umas paisagens bonitas preenchidas pelos ferros de grandes viadutos e prédios. Estamos em Sampa. A galera fervendo nas ruas...
Manoel pára na portaria do prédio de Helena, o mesmo prédio que ele estava sentado em frente, na noite anterior, e fala com ela no interfone.

- Oi. Será que a gente pode conversar?

Ele entra.

ATO FINAL: UM FIM ESTRANHO
INT/ APARTAMENTO DE HELENA/ DIA

Helena deixa a porta entreaberta. Manoel toca a campainha e ela pede que ele entre. Ele fica esperando de pé na sala. Temos uma luz bonita que estoura na cortina atrás dele.

- Oi. Nossa! Você não está com uma cara muito boa, não!
- É, eu acredito que eu não esteja.

Manoel está olhando para fora da cortina. Helena veste uma calça larga de pijama e uma camiseta. Escuta do outro lado da sala.

- Acho que há uns dois anos e três meses eu não estou com a cara boa.
- Você quer tomar alguma coisa?
- Não

Helena segue para cozinha. Continuamos na sala.

- Isso é bastante tempo. É o nosso tempo.(Helena)
- Você ainda se lembra?
- Sim, eu me lembro.
- Eu tenho pensado bastante no tempo em que a gente esteve junto. Mas ao invés disso me deixar bem, ás vezes, eu penso coisas erradas. Eu pensei em matar a pessoa errada.

Helena volta para sala com dois copos de suco.

- Eu não estou entendo muito o que você quer dizer, mas conhecendo seus pensamentos como conheço, eu acredito que você só está alucinado em uma idéia e acha que não vai ter isso de novo. Se for esse o problema, acho que você tem que abandonar essa idéia, se livrar dela para começar a enxergar a vida de novo.
- É justamente o que eu tinha pensado. Livrar-me dessa idéia que me persegue, mas, talvez essa idéia seja minha vida.
- Então você tem que entender que pode ficar sem ela. Tire essa ilusão que está na sua cabeça e se não puder, jogue; brinque com isso. Você é uma boa pessoa. Eu gostaria de ajudar, mas você sabe que só você é quem pode entender e mudar isso que está ai dentro. Eu não posso.
- Você sabe do que eu estou falando.
- Sei e, não posso mudar. Não agora.
- Você vai ser uma boa médica, sabia?

Manoel coloca o copo vazio sobre uma mesa.

- Eu conheço bons pacientes para ir treinando.
- Eu posso voltar outras vezes?
- Claro! É engraçado...
- O que?
- Tanto você, quanto eu, nós sabemos que você não vai vir.

Ele sorri e segue para porta.

SÓ UM OFF:

VIVER É TER A CURIOSIDADE DA ILUSÃO E, ACIMA DE TUDO, ACREDITAR NELA. ACREDITAR NA CURIOSIDADE DO AMOR; DA DOR; DA FELICIDADE; DO MEDO; DA ANGÚSTIA; DA RIQUEZA; DA FÉ; DA MORTE E DA PRÓPRIA VIDA... SONHOS QUE VIVEMOS SEM SABER E QUE NOS LEVAM AO NADA QUE É TUDO O QUE SOMOS...



PARA TODAS AS ALMAS PERDIDAS NO MUNDO...















LEGENDAS
ROTEIRO COMEÇADO EM 2001







SEQ. 1 INTERNA/ BANHEIRO DO SHOPPING / DIA
Rafael, vinte cinco anos, visual executivo, e Roberto, vinte e um anos, officeboy, estão no banheiro, lavando a mão na pia. Legendas aparecem em seus corpos. Rafael (legenda- PESSOA BOA). Roberto (PESSOA BOA, PASSA MAL). Roberto apontando a torneira na sua frente, indignado, diz:

Roberto
Olha isso! Você vem sossegado ao banheiro, dá um mijão, fica na boa , e quando vai lavar a mão tem que encarar uma palhaçada dessas.

Rafael
Que foi, velho?

Roberto
Essa legendinha aqui, Push, Push! Agora, pra se ter higiene depois do mijo, deve- se saber inglês. Só pode ser zoeira!

Roberto aperta a torneira três vezes

Rafael rindo
Se passa mal cara.

Roberto
E não é verdade? E ainda me chamam de retardado pondo esse desenho (legenda no desenho(-BIZARRO), que mostra como usar a torneira passo a passo. Tão dizendo na minha cara: se você é imbecil, e não sabe essa língua, pelo menos saiba seguir esse desenho bizarro. Tão me tirando, só pode ser.

Os dois seguem em direção à porta de saída. Ao fundo, o cara (legenda – PAGA PAU-), que estava numa pia ao lado deles, se mostra indignado para uma outra pessoa que chega. Ele faz os mesmos gestos que Roberto fez ao apontar a pia.

Rafael debochando
Pó, cara, você podia escrever alguma coisa sobre isso. Podia ter um título, tipo um alerta ao domínio americano. Já sei: querem globalizar seu mijo, você vai ficar ai parado!

SEQ. 2 INT / CORREDOR / DIA
Rafael e Roberto saem em um corredor do shopping. Enquanto vão andando, o diálogo continua. A câmera os segue de frente. O movimento das pessoas (legenda das pessoas-PESSOAS-), é intenso.

Roberto
Fica me tirando, vai, pode rir, mas quem fica pagando pau e escrevendo legendinha em filme gringo é você. Fica lá “Oh, I no”. Maior cobaia lingüístico. Eu, pelo menos, só recebo uns recados e ainda trabalho ao lado da delícia da Ju!

Rafael pára, gesticulando com os braços.

Rafael
Ai se apela. Primeiro essa de cobaia lingüístico, nem sei se isso é gramática, e depois, fala que fica cá Ju, enquanto eu to numa sala apertada, cheia de macho.
Eu não vou discutir de novo o meu emprego com você cara, é muito honrado o trampo de ficar colocando legenda em filmes, muitas vezes eu tenho que criar o texto, porque ele não tem tradução exata e, você tá ligado, essa conversinha sua me irrita.

Roberto
Não precisa ficar irado só porque sua função é escrever o texto que alguém criou...

Rafael
Vai se ferrar, seu boy frustrado. Só porque agora tá no atendimento, já fica se achando, seu bosta. E...eu não tou bom para te tirar. Vamo mudar de assunto. Fala da delícia da Ju, seu folgado da porra!

SEQ. 3 INT / REFEITÓRIO DO SHOPPING / DIA

O refeitório consiste nessas lojas apertadas de vender comida dos shoppings. É um grande salão redondo. Um corredor circular divide as lanchonetes na borda das mesas que ficam no centro, num piso um pouco mais elevado. Os dois continuam andando em direção às mesas.

Roberto
Você nunca ta bom para me tirar! Desencanando, a moça está na sua melhor aparição.Veio com aquele vestidinho colado, deus do céu, eu to que não me aquento. Fica lá me provocando, acariciando os cabelos, não tem como. Aliás, quero deixar claro que ela só paga pau pra você por causa desse terninho, jeitinho frango executivo.

Rafael
Cada um com as suas angústias!

Os dois sentam em uma mesa. Ao lado deles temos uns executivos vestidos socialmente (legenda- FRANGOS EXECUTIVOS). Ouvimos o barulho daquelas máquinas que informam a senha das comidas. Roberto observa aquela que eles esperam.

Roberto
Qual o número da nossa senha?

Rafael retira a senha do bolso e a põe sobre a mesa.

Rafael
Cinco nove(59)

Roberto
Olha, nossos amigos. Eu gosto deles, sempre sorridentes. Seja educado e os cumprimente. Rafael, assim você torna o dia deles mais agradável.

Eles estão sentados próximos a uma loja de comidas chinesas e fazem sinais com a mão. O China que comanda o grupo de atendentes está todo alegre. Roberto fala baixo, de forma que o China não escuta.

Roberto
Pastelaria não deu certo, né. Shopping mais negócio, né. Pena que Hiroshima é no Japão, né, china safado.

O China continua feliz em seu trabalho.

Rafael
Você devia ser mais calmo com o Japa. Não vê cara, por mais que a comida dessas lojas venha de lugares onde comer cérebro de macaco é normal, a maioria dos atendentes são dos nossos. Eles geram empregos cara. Empregos para os tupiniquins daqui. “O dólar deles paga o nosso mingau”.

Roberto
Eu só fico tirando, cara. Eu curto os japas. Pode ver, meu...eles não têm meio termo, ou são calmos ou pirados. Os japas são da hora mano.

Eles estão em frente a uma lanchonete árabe. Roberto está observando.

Roberto
Eu respeito às culturas dos outros, mano. Veja só, nem acho errado esses árabes desencanarem de brigar por uma Terra Santa e vir aqui vender esfiha, eu até como esfiha nos botecos. Se bem que Terra Santa para mim deve ser o nome de algum cemitério de freiras.

Rafael
Meu... eu estou começando a ficar com medo de você. Enquanto seus ideais psicóticos ficarem só entre nós, o Mundo está seguro. Mas quando você começar a falar para grupos, puta, aí mano...

Rafael faz o símbolo do cumprimento nazista. Eles avistam o McDonalds (legenda- In God We Trust). Rafael, então, muda de expressão.

Rafael
Ah... mais esses...esses caras são um perigo! E não estou falando dessa coisa de estarmos sendo dominados, os caras são o mal do Mundo e blá,blá blá. Na verdade, eles são o mal, mas o Mundo tem sua parcela de culpa. O que eu quero dizer é, a porra da estrutura dessas lanchonetes é um perigo. Eles construíram uma perto de casa em três dias cara, três dias! Se bater um vento essa merda cai, eu to te falando meu. E eles têm orgulho de construir isso rápido, é uma espécie de marketing. Sorte não termos tempestades e tornados, essas porras todas.

Roberto
Só, cara...só. E os malditos não vendem cerveja, meu. Vendem um copo de Coca que não deixa você dormir por três dias...

A maldita máquina apita o 59. Roberto apanha a senha da mesa e vai se levantando enquanto continua falando.

Roberto
O hambúrguer dos caras é de minhoca meu, se você usar de húmus no jardim, em pouco tempo você tem uma Amazônia. Esses caras são maus, brother. Eu estou com medo, velho! Depois de comer, vamos ver umas calcinhas para aliviar essa pressão.


SEQ. 4 INT / CORREDOR DO SHOPPING / DIA
Os dois saem da praça de refeição. Estão em um corredor de lojas. Os dois param em frente a uma loja que vende calcinha. Fica claro que eles estão observando a vendedora.

Rafael
Vou ter que comprar uma dessas pra mim. Olha essa azul, que linda! Ia cair muito bem.

Roberto
Isso...isso sim é produção nacional. Os outros países têm tecnologia, acumulam fortunas e gastam toda sua grana se matando em guerras, sabe por quê? Porque eles não têm uma maravilha dessas. Nossa arma bélica, uma infantaria de delícias, todas ali, prontas para arrasar qualquer ser vivo.

Rafael
Só que nós dois não temos fortuna e nem uma maravilha dessas. As bandidas usam seu poder bélico contra seu próprio exército. Malditas desertoras.

Roberto
Cara, você me irrita! Porque você não começa a ver o mundo de uma forma mais agradável. Veja dessa forma: nosso exército de tilangas ainda não está formado porque nós ainda não entramos na guerra. Só estamos de fora, observando, bolando a estratégia e quando estivermos com todo a armamento, ai sim... teremos o domínio!

A vendedora mostra um sorrisinho meigo e chamativo (legenda-DELÍCIA). Quando os dois estão se virando para sair da vitrine, Genésio, senhor de uns 50 anos, vem apressado e esbarra forte no ombro de Rafael, deixando cair uma caixa, a câmera filma a caixa (legenda na caixa-SECRET BOX-). A câmera gira ao redor deles filmando os três de perfil .
Rafael esboça um pedido de desculpa e vai pegando a caixa (legenda na caixa- CAIXA SECRETA), mais antes disso o homem diz nervoso:

Genésio
Olha para frente, seu desmiolado!

Rafael
Foi mal, eu tava virando e ...

O homem (legenda nas suas costas- CANDIDATO À INFARTE) sai sem dizer nada.

Roberto
Véio folgado! Devia ter algo importante na caixa. Eu aposto que era uma fantasia do Batman.

Rafael
Não fala assim do senhor, cara. Era do Robim! Com certeza!

O senhor não está muito distante dos dois. Roberto chama o velho.

Roberto
Homem morcego.
.
O senhor olha para eles e eles lhe mandam beijinhos. O velho sai desnorteado.

SEQ.5 INT / PORTA DE SAÍDA DO SHOPPING / DIA

Roberto
É por isso que eu gosto dos shoppings. Em qual outro lugar você pode encontrar tanta variedade de diversões, cara? Aqui você vê lojas; vendedoras gostosas; velhos pederastas... Eu adoro isso tudo, cara.

Rafael
Só...cada vitrine é uma surpresa. É só não ficarmos olhando nossos reflexos e agente está pronto para o Mundo.

Na porta da saída Roberto pára Rafael com o braço. A câmera aproxima e fica entre os dois, focalizando o adesivo Push na porta de vidro.

Roberto
Eu não to dizendo, cara! Agora querem padronizar a saída das pessoas! Se a porta mexe para os dois lados, por quê o aviso? É tudo um plano de dominação psicológica! Começa assim devagar, e daqui a pouco não sabemos mais quem somos!

O som vai sumindo, entra a trilha, os dois vão se afastando, nós vemos os seus gestos que são exagerados e engraçados, pessoas passando pela porta...

FAD OUT
Tela preta Aparece o letreiro FIM(legenda- THE END)
Crédito.

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