Sabe, eu me apaixonei. E esse é um bom jeito de começar o livro. Me apaixonei por uma estrangeira. Mas, talvez você não saiba que existem as estrangeiras de território (pessoas do Norte e Nordeste que vem para São Paulo), existem as estrangeiras de fronteira (pessoas que vão de São Paulo para Europa) e existem as estrangeiras da mente, do Ego e da Terra.
Às vezes, uma mesma pessoa guarda mais desses segredos num corpo só. Loriane provavelmente seja uma dessas, como poderia de forma romântica traduzir, andróide híbrida com sentimento, porém, deixemos que eu descubra esta vertente de caráter enquanto discorro a nossa narrativa. E eu peço a sua licença para contar a nossa história.
Deus atua de maneira que nós insetoides não possuímos a capacidade de entender. O que quero dizer: aquilo que nós mais desejamos não nos chega, e para aquilo que não temos expectativas, nos cai do céu no colo. Como uma estrela traçando uma supernova.
Foi assim com a Lori. Não pense que eu não quero que você queira alguém do fundo da tua alma. Isto é o que é mais representativo num ser humano: a profundidade! Mas acontece que a Loriane se disfarçava de algo que não pude entender até que eu a toquei.
Foi num dia raro em que me mandaram para o estoque e, ao entrar, ela estava lá. Eu olhei para ela e fechei a porta às minhas costas.
Se você se aproximar, eu grito. Ela falou com uma voz que estava mais para provocação do que para ameaça, se inclinando para trás nuns móveis velhos.
Você não grita e eu sei. E fui me aproximando.
A nossa respiração foi se tornando ofegante enquanto nós íamos ficando mais pertos. De repente ela soltou o corpo lânguido de um prazer agora incontrolável e num movimento involuntário, afastou uma perna de outra deixando a vulva exposta para o meu toque.
Fui com a mão entre as pernas dela. Ela gemeu um pouco baixo. O meu falo estava duro feito um martelo.
Nós nos aproximamos e nos beijamos. E a gente se colou em braços e apertos com o medo de que alguém entrasse e nós descobrisse, o medo que era uma pimenta naquele tempero de sensualidade.
Eu fui descendo a boca beijando o corpo dela até a cintura e quando ia abaixar a legging para como um polvo beijar-lhe todo o sexo molhado, ela me puxou pelos cabelos para cima e me disse: não! Aqui não!
Foi assim que entrei no mundo Lori.
Eu disse que ela é uma androide híbrida com sentimento. Disse errado. Eu sou!
Loriane é bem humana. E daí começa o risco. O perigo de me juntar a raça.
Estrangeiros devem se misturar, com a premissa única de não se perder.
E você vai descobrir quem caiu no decorrer dessa história.
Tem um capítulo entre as fronteiras que não posso deixar de fora. A música! Para mim, se há algo sagrado na Terra é a música de qualidade. As que a Loriane colocava em casa eram terrivelmente deploráveis. Sei lá que (perdão a Deus) desgraça é essa de plágio, imitação escrachada de pancadão ou pisadinha ou demônio qualquer sonoro advindo do Norte e Nordeste.
O que jogava ao meu favor é que esse tipo de ritual excitava a Lori. Ela ouvia o cântico dos Orques, abria umas duas cervejas e logo deitava na cama.
Eu me deitava por cima do corpo dela, sentado sobre as costelas mesmo, com a vista para os pequeninos peitos saltando levemente para fora do sutiã e esperava ela abrir os lábios.
Então, inseria o meu falo ereto naquela boca macia cheia de saliva e dava umas bombadas, horas mais delicadas, horas com um pouco mais de força.
Depois retirava o pau cheio de saliva e de gemidos e colocava entre as pernas penetrando naquela concavidade quente e úmida e apertada, me movendo em movimentos um tempo rápidos, um tempo lentos.
E o orgasmo sonoro de Loriane me fazia esquecer e até agradecer a pisadinha e o pancadão.
Aqui, há que se entender algumas diretrizes de fronteira.
Estrangeiros não têm tudo em comum. Mas os prós têm que compensar os contras.
E quando o sexo começa ser o prós, aí inicia o problema.
Lori me viciou. Um estrangeiro maduro não pode jamais deixar se abater por gemidos.
Tomando-se como princípio que nós não somos desta Terra, somos todos estrangeiros. De modo que estaria liberado o sexo e a reprodução entre todos, não fosse o fato que existem os estrangeiros de consciência aberta e os de consciência fechada. Loriane era de consciência fechada.
Ou semi-aberta, sejamos sinceros.
Porque semi-aberta? Pelo fato que ela se moveu para São Paulo.
Não é que São Paulo abra a consciência de uma estrangeira. Mas o simples fato de se mover é um prospecto de bênçãos nas rupturas das grades que fecham as consciências.
Eu sou de São Paulo e me movi para Europa. E lá fui genuinamente devorado.
Esses pensamentos audazes desapareciam da minha mente quando devorava Lori e a gente transava em pé em frente ao espelho do banheiro.
Aqui, a gente vai chegando a abertura do título:
Estrangeiros de lugar nenhum.
Pois se somos todos estrangeiros da Terra, tanto faz para onde movemos. Se não expandirmos a mente, seremos sempre toupeiras
Pensei que sinceramente fosse mudar Loriane, mas o que acabou acontecendo, foi que ela me mudou para melhor humano.
E isso me enoja..
Eis a pergunta que sonda a muitos: os estrangeiros de lugar nenhum de mente aberta são um perigo a sociedade status quo?
Não. Literalmente bem poucos são a ameaça. Isto porque, a menos que sejam herdeiros, terão que se enquadrar no sistema para sobreviver.
Pouquíssimos se envolvem em política e poder. O reino deles é nos bastidores e nas entrelinhas.
Eu sou supervisor de vendas numa loja de tintas. Estou realizado? Jura que tenho que responder? Mas, assim, o nosso pigmento vem dos Estados Unidos, o que é mil vezes melhor que representar qualquer quinquilharia vinda da China.
E sempre aparece umas meninas quentes e fortes no trabalho e na equipe, o que acaba tornando a coisa toda suportável.
O salário também é legal. A nossa loja é a que mais vende dentro de uma metrópole.
Estou nessa há cinco anos. Talvez agora eu vá dar entrada em um apartamento e começar a pagar o meu imóvel. Tenho um carro utilitário 1.6 e segue sendo assim.
Tenho um mapa mundi na parede do quarto com todos os lugares que andei. Pode acreditar que ele é bem recheado de alfinetes.
Cada alfinete leva o nome de uma estrangeira. Não pego qualquer raça. Eu pego, ou sou pego, por aquelas que causam impacto.
Você tem que tirar os espinhos de cactos para chupar a água limpa.
Loriane entrou na nossa loja há três meses. Está em teste nas vendas.
Ela tem um jeito meigo, carinhoso, fala macia e, obviamente, é bem gostosa.
Está indo bem.
E há três meses vem causando este desequilíbrio no meu modus operandi.
Tenho um amigo. Ele trabalha comigo na loja de departamentos e é, como costumo dizer, um faz tudo, sendo o meu braço direito no setor operacional. Eu o chamo de Barnabé.
Barnabé é baixo e feio de matar. Ele fala para dentro de um jeito complicado de entender. Sua família é do Norte de Minas Gerais e ele está em São Paulo faz onze anos. Mora num pardieiro de um bairro afastado da onde estou e se sente feliz ali porque tem muitos bares próximos.
A primeira vez que tive uma conversa descontraída com Barnabé foi num desses bares onde compro um assado delicioso de fins de semana.
Barnabé estava sentado sozinho numa mesa lá nos fundos, me viu e, empolgado pela cachaça, me chamou.
O senhor! Doutor! Que alegria ver você nesta espelunca. Sente aqui, “home”! E ele riu com aquela boca de poucos dentes, afastando um mosquito perto dos cabelos.
Ele foi educado, então resolvi ir ao comprimento e tomamos umas cervejas e comemos moela no molho com torradas. Estava delicioso.
Barnabé me fez rir e isso é raro. Desde esse tempo nós nos encontramos às quintas em casa. Assamos uma carne e linguiça, não pode faltar o queijo dele e o “mé” para dar uns goles.
Eu só como carne mal passada. Barnabé come a carne torrada de tão bem passada. Ele diz “uai, não sou vampiro!” E me acho rindo atoa.
Não que eu jamais soubesse, para nós, Barnabé nunca conheceu uma mulher de verdade. Algo que não desmerece a nossa relação e a minha amizade por ele, porque ele é um homem bom.
O nome de Barnabé é Claudomiro.
Claudomiro está acima da minha escala de estrangeiros. Creio que ele é o legítimo estrangeiro da Terra. Não pertence a esse mundo.
Quando Loriane percebeu a nossa proximidade, ela resolveu interferir de um modo audaz, mas compreensivo e até bom.
Ela não perde a oportunidade de bajular Barnabé com falas e gestos. E até o auxilia nas responsabilidades dele.
O que eu posso dizer? Por mim tudo bem,
Eles não são tipos de estrangeiros que passariam dessas provocações lúdicas.
Sendo que o meu relacionamento com Barnabé está bem garantido. Bem como, a minha foda com a Lori.
Você me pergunta se possuo adversários no meu mundo extra-curricular? Sim. Eu tenho um. Ele se chama Gilberto.
Gilberto é o gerente da loja. Ele está sendo cotado para a vaga de gerência regional e a sua vaga ficaria em aberto para mim, ou entre outros dois supervisores de outras duas lojas da região.
Pela lógica e pela proximidade, a vaga seria minha, não fosse pelo simples fato que o Gilberto é um cabaço.
Gordo, branco, calvo, um legítimo dissimulado e, num grau que beira ao absurdo, um bajulador declarado de ricos.
Todo cliente “importante”, que quer dizer que gasta, que significa “tem a tocha”, ele vai lá e de um modo humilhante limpa as botas do cara. Você me entende, né? Um “baba ovo" de primeira.
O idiota nunca ganhou nada com isso, porque se ele fosse um viajante, como eu sou, saberia que todo rico de verdade percebe na cara os exageros de um bajulador barato.
E eles acabam comprando com o vendedor que nunca é o que o Gilberto indica ou chama para perto. Geralmente escolhem aquele ou aquela que estão quietos em se setores consultando mercadoria.
Não fosse por essa, Gilberto mora perto da minha casa. No começo, quando entrei na loja, ele me ofereceu carona. Quando percebi o caráter dele, ficou chato dizer não, e fui meio obrigado a comprar o meu carro para ter uma desculpa de não dividir mais aquela desagradável companhia.
Dia desses estava eu na lotérica para fazer uma fezinha, e quem toca as minhas costas? Virei e pensei em silêncio “filhote de belzebu”!
O puxa saco e bajulador dos ricos, passou a língua entre os lábios e me disse:
O que você faria com tantos milhões?
Eu desejei dizer “daria uma boa parte para cada funcionário da loja, menos para você, seu puxa-saco de fortuna”! Mas pensei melhor e disse:
Compraria um motorhome, aplicaria o restante e com o rendimento dos juros, faria primeiro o caminho dos Andes, tipo de Ushuaia à Machu-Picchu.
Gilberto fez uma careta interessante e bizarra. E disparou o que foi previsível me dizendo:
Pois eu compraria a rede geral das nossas tintas e ia ficar só em campo de golfe enquanto os outros trabalham para mim. E riu com aquela gargalhada de otário babador.
Graças a Deus a minha vez no guichê chegou e fui embora.
Gilberto tem a cabeça fechada? Olha, sou sincero em afirmar que ele não sabe nem diferenciar a cabeça, a mente e o ego do seu próprio pau frustrado.
Vai demorar muitas vidas para babas-ovos tipo o meu gerente serem estrangeiros de lugar nenhum.
Você se lembra, lá no começo, quando disse que me apaixonei por Loriane?
Vou contar como isso começou a acontecer.
Eu estava em casa com ela e a danada quis bisbilhotar um e-mail entre a supervisão e a gerência no qual escrevi de maneira debochada que era pura perda de tempo convocar uma outra reunião para discutir as mesmas coisas de sempre.
Até aqui era o que eu estava conversando com ela na mesa de jantar.
Mas abaixo desse e-mail e abaixo desse outro e-mail, eram mensagens confirmando a reserva de passagem e de hospedagem na pousada em uma cidade de montanha não muito distante da nossa metrópole.
Imagina o que aconteceu?
De modo insinuante e excitante ela praticamente implorou para ir junto, já que era folga dupla dela nesse fim de semana.
Odeio sair neste tipo de rolê acompanhado, mas pensei bem e pensei como homem: melhor uma transa garantida do que ter correr atrás de uma outra qualquer.
Lori foi.
Descemos na rodoviária do pico da cobra às 14:20. Até ali, a viagem de ônibus, tinha sido um teste. Loriane veio quieta em seu celular a maior parte do caminho enquanto eu olhava pelo alto a paisagem da estrada. Achei respeitoso.
Não reclamou de fome, já que passava a hora do almoço. Julguei muito respeito.
Chegou uma hora, tive condolências à fome que ela obviamente sentia quando paramos numa praça. Eu disse:
Ta, quer almoçar?
Ela respondeu de prontidão, Graças a Deus! Onde?
Aquilo foi engraçado. Respondi, Aqui mesmo, uai. Acho que estou pegando meio os trejeitos do Barnabé. Não te contei que o Barnabé é metido à escritor, contei? Ele tem oito livros publicados! Um pior que o outro!
Aí, vamos comer… Ela soltou o corpo lânguido e desfalecida sentou-se no banquinho. Aquele domínio me excitou.
Tirei da mochila uma lata de sardinha e, num embrulho, seis pães de forma.
Lori olhou tudo aquilo com muito gosto e apetite. Me espantei um pouco com a atitude dela, mas achei extraordinário.
Quando fui abrir a lata de sardinha com o canivete, num lance falho, cortei o meu dedão. Um corte leve, mas sangrou.
Lori esqueceu a fome completamente, estancou o corte com a mão dela, quis ir para hospital e farmácia. Falei que estava tudo bem. Não era para tanto.
Porém, a queda começou com esse cuidado carinhoso.
A gente comeu os sanduíches ali e foi até a pousada caminhando.
Ela teve um zelo para arrumar as coisas dela no quarto, ajeitando tudo em seu lugar. Enquanto eu somente joguei a mochila no canto e fui conhecer os arredores.
Quando voltei, Loriane estava no telefone com a mãe dela. Me deitei na rede e ouvi dela uma narrativa muito empolgante e comovente, de um jeito próprio deles do Nordeste falarem e abruptamente devota e agradecida a Deus tudo que ela havia presenciado até aquele momento, e agradecendo a estadia maravilhosa.
Este foi o segundo degrau que cai. Estava me entregando e não percebi.
Na janta, a gente tinha bebido vinho e cerveja, e Lori puxou uma conversa com uma hóspede da mesa do lado. Essas incontestáveis inconveniências etílicas.
Então, Loriane olhou para mim e falou para mulher:
Este homem aqui que está comigo é inteligentíssimo! É forte e independente… Mas no fundo, no fundo… Ele é marrudo porque é sozinho! Dentro do coração dele, ele é solitário!
E ela se levantou e foi para o quarto.
Aquilo foi um tiro de escopeta. Porque eu não imaginava que no fundo dos seus rasos sentimentos, Loriane sabia ler. E ela me leu profundamente.
Cheguei no quarto, ela estava dormindo. Não quis acordá-la. Era uma visão excitante e linda, mas por motivos óbvios, não me pareceu certo acordá-la.
De manhã, nós transamos. Foi bom e foi diferente das outras vezes. Teve carinho, teve sentimento.
No fim ela olhou nos meus olhos e disse:
Estou apaixonada por você,
E não foi aquilo, meu amigo. Foi uma junção de fatores, que fez esse estrangeiro de lugar nenhum de mente aberta desabar no abismo Lori.
E descer na escala hierárquica dos estrangeiros é se diminuir em mesma proporção na escala quântica.
Me encontrei assustado, olhando para o rosto de Lori como se olha abismado o horizonte no deserto do Atacama no Chile.
Ela deslizou carinhosamente os dedos no meu rosto e me deu um beijo doce e profundo na bochecha.
Por que ela estava fazendo isso? Não era mais fácil como era antes?
Me levantei, vesti rápido a bermuda e a camiseta, me desequilibrando levemente, e disse:
Bora tomar o café da manhã?
Ela me respondeu, numa languidez absurdamente sensual, “Estou com preguiça… Vou ficar um pouco mais aqui na cama. Hum, pode ir primeiro, tá”.
Aquilo foi foda. E não foi foda, se você me entende.
Me servi duas bananas, uma nectarina, três mini pães de queijo, um mini pão francês com presunto e queijo enrolados, suco de laranja com mamão e café com leite.
Loriane não aparecia, e por raios e diabos, Deus me queira bem, eu senti falta. Senti a falta dela alí comigo.
Para não pensar o porquê daquele sentimento, me levantei e fui até a área da piscina.
Estava dia meio nublado. Não tinha ninguém aos arredores, o que se tornou bom para meditar na situação.
Cara, sem me gabar, já tive nos meus braços, eu friso, já tive na cama, na barraca, no carro, na lavanderia, em banheiros de metrô, em sala de espera de aeroportos famosos, nos quartos mais escuros de espeluncas antigas do Velho Continente, uma dezena de estrangeiras da Europa, onde conheci todos os infindos segredos e buracos dos nossos corpos ofegantes de calor.
Tem duas que me rememoram o que desejo me recordar para acordar desse sonho abrupto que está sendo a Loriane.
Angelique, da França.
E Carina, uma espanhola.
Angelique, uma loira cacheada linda, de olhos verdes de mar do Caribe. Nos conhecemos na aula de Inglês em Londres. Ela era estagiária na Apple. Eu chamei ela para tomar um café e a gente se beijou e logo estávamos transando, um dia no apê dela, outro no meu.
Carina. Morena de cabelos bem lisos, olhos castanhos, corpo esguio, uma elegância sem mesura para as minhas palavras. Ela estava sem emprego na Irlanda e aquele frenesi de estresse a deixava mais atraente e quente.
Se eu puder resumir em poucas palavras, as estrangeiras da Europa se entregam com a mesma profundidade que chegam e que se vão.
Elas gozam em suas línguas. E as minhas, sem pêlos, como a maior parte dos brasileiros, de um modo pejorativo e até invejoso, pensa.
Elas sabem ler o que você gosta na cama. Não “queimam a largada”, não se atiram depravadas em vulgaridades como se o meu pau fosse o último da Terra. Elas têm o ritmo.
Talvez eu só tenha a sorte. Porque as que escolhi, sabiam interpretar o meu ritmo. E o sabiam traduzir certo e gostoso em nossos corpos entrelaçados e ardentes em suor e gozo.
Me masturbaria nesse instante pensando em Angelique e na Carina, as duas comigo numa mesma cama, sem dúvidas o faria.
E agora, Deus me perdoe, a lazarenta da Lori está sabendo interpretar e encenar, como numa ópera rock de Milão, o que sou e o que quero.
Chegou uma hóspede com um bebê no colo no hall da piscina, para quebrar estes meus devaneios. Eu a cumprimentei com um movimento de cabeça e com a fala e, num momento lúdico da Divina Comédia, o inferno com certeza, Loriane apareceu, chegou perto da hóspede e do bebê com trejeitos de puro carinho, pegou o rebento em seu colo, e cheirou a nuca daquela pequenina criança.
Cara, agora você tem que me entender. Aquilo foi mais que qualquer foda. Foi um abismo de expectativa.
Então, a hóspede e o pequenino se retiraram.
Lori chegou perto, me deu um beijo, sequer mencionou ter tomado o café sozinha, olhou nos meus olhos e disse:
César, a gente bem que podia morar juntos.
Esse é o meu nome: Avelino César de Meira.
Eu poderia responder “Você enlouqueceu!”, mas ao contrário disso, eu disse:
Calma, ainda é cedo.
E eu comecei a me entregar numa vala e ter um lugar, e esse lugar se chamava Lori, de Loriane.
Loriane ficou deitada com a cabeça em meu ombro, e o braço entrelaçado no meu, boa parte do caminho de volta no ônibus.
Eu olhava a vista pela janela imaginando o dia seguinte. Logo de manhã, eu tinha uma reunião marcada com o escroto do Gilberto.
O tópico eram as vendas caindo e o faturamento baixo.
Para mim, nesta época do ano, não era nada anormal. Mas a gerência adora uma reunião inútil de segunda feira e eu teria que enfrentar bem cedo o mau humor do Gilberto.
Loriane se despediu de mim com um beijo adocicado e molhado feito jabuticaba madura, ajudei ela tirar a mochila do Uber enquanto aguardava-a entrar no portão. Ela disse: “Até!”, abanando a mão direita no ar.
Cheguei na loja bem cedo, cumprimentei a equipe de vendas e da reposição, fui ao espaço do café, onde alegremente encontrei-me com o Barnabé. Ele me deu um tapa nas costas e disse: “Tá bronzeado hein, chefe!” E rimos, dividindo um pão francês com manteiga.
Eu já imaginava que o imbecil do Gilberto ia atrasar de propósito, somente para frisar quem manda. Fui andar um pouco pela loja, fiscalizando as etiquetas de nomeação e os preços das mercadorias.
Encontrei uma anormalidade. Algumas tintas que deveriam estar em outro local ainda estavam no mesmo lugar.
Falei alto, sem ser grosso, e até com ironia: “Quem é o responsável por esse setor? O que essas latas de tintas ainda estão fazendo aqui?” E disse, soando à brincadeira “Eu quero nomes!”
Uma voz saborosa que eu bem conheço, respondeu:
“Eu sou a responsável!”
Era Loriane.
Olhei sério para ela e falei:
“Então faça a troca! Para já!”
Ela respondeu “Sim, senhor!” E relou a mão de leve no meu braço.
Avistei à meia distância Gilberto entrando apressado na loja e, com um sinal de braços e mãos apontou a sala de reuniões olhando na minha direção.
Eu me sentei. Ele parou com as mãos apoiadas na lateral da mesa e com o corpo arqueado para frente foi dizendo:
Serei breve, pois já tenho tudo decidido. As nossas vendas caíram consideravelmente, estou sendo cobrado, odeio ser cobrado! Preciso cortar alguém e você é quem será o responsável pela demissão, estamos de acordo?
Esse cara é um filho da puta, e você, caro inteligente leitor, pode imaginar onde essa trola ia dar. E não deu outra. Gilberto soltou um suspiro e disse:
É uma pena, mas a Loriane está fora. Nós vamos demiti-la. Você é o responsável por notificá-la até o fim do expediente. Está dispensado.
A minha vontade era esmurrar aquela cara gorda e calva. Obviamente ele sabe do meu relacionamento com a Lori, e esse foi o jeito da hiena puxa-saco se vingar.
À medida que o dia ia passando eu olhava a Loriane feliz, como de costume, em seus afazeres na loja e olhava Gilberto me olhando com o típico ar de perversidade.
Chegou um momento, não aguentando a angústia e a ansiedade, pois não sabia se era melhor avisá-la cedo ou tarde, chamei-a para sala de reunião.
Loriane veio empolgada e aquilo me torturava inteiro por dentro.
Ela se sentou, perguntei se ela queria uma água, ou um café. Ela pegou um copo de água gelada, levou aos lábios e eu comecei o diálogo:
Lori, as coisas estão difíceis no mercado, a nossa loja não está indo bem, entenda que não é nada pessoal e, tampouco foi uma decisão minha.
Ela foi entendendo e desfalecida na cadeira, perguntou?
Foi alguma coisa que eu fiz? E começou a soluçar.
De modo algum! Você tem ótimo caráter! É responsável, nunca atrasou…
E ela começou a chorar à medida que eu a elogiava. Eu falei:
Vamos encarar isso como uma oportunidade! E se você notou, leitor, eu usei pela primeira vez o plural.
Loriane às lágrimas, me disse:
Mas eu sou sozinha! Não tenho ninguém! E tem o aluguel, as contas…
Eu disse sem pensar:
A gente vai resolver!
E ela segurou a minha mão. E os soluços cessaram.
Foi assim que Loriane foi morar em casa. Com a premissa de ser até ela arrumar outro emprego. Mas, você sabe, não é, meu caro? Eu sei que sabe.
Estabeleci uma escala de pontuação para avaliar até quanto foi sensata ou insensata a decisão de acolher Loriane em casa.
Ela é organizada e mantém sempre as coisas no lugar: um ponto.
Ela não deixa lixo biológico feminino exposto na lixeira do banheiro: dois pontos.
Ela não muda as minhas coisas de lugar: dois pontos.
Ela não me pergunta coisas das quais eu não começo falar ou dei liberdade: três pontos.
De modo que quando o rating chegar aos vinte e cinco pontos, iremos reavaliar a situação. Mas fiquemos, eu e vocês de acordo, que ela está se saindo bem nesse começo.
A gente se zoa e brinca bastante, o que tá okay.
Às quintas feiras se tornaram uma festa!
Barnabé continua vindo em casa e quando ele e a Lori se encontram, parece que o trio inteiro da Barra-Ondina desce aqui em casa.
Os dois dançam agarrados e é engraçado para um caralho!
Sabe, é legal ter alguém te esperando em casa. Me dá toda uma segurança e responsabilidade da qual nunca tive vivência.
Continuo colocando todas as minhas roupas misturadas na máquina de lavar. Se não dá tempo de estender, a Lori estende.
Ela sugeriu se eu gostaria que ela passasse a roupa. De prontidão, eu disse: “Deus te livre! Se alguma coisa de bom os Estados Unidos nos ensina é não perder esse tempo!” Ela riu.
As roupas dela ela cuida como bem entender.
Lori sabe cozinhar: quatro pontos.
Ela sabe a culinária do Nordeste: mais dois pontos.
Esses dias, cheguei em casa e ela estava como que num misto de euforia e ansiedade. Eu disse:
Que foi, Cristo?
Fui chamada para uma entrevista!
Que bom! Não falei que era só ter paciência! Parabéns!
Obrigada! É lá naquela loja de cosméticos enorme no centro!
Pois vá e veja o que acontece. Avalia a proposta, veja se te agrada a energia do ambiente.
Quero muito que dê certo!
Brinquei com ela, As suas unhas e pés são muito bem feitas! Você é cheirosa! Mostre esses dotes ao RH!
Ela fez um muxoxo com os lábios e o rosto e disse: “Babaca”.
Nossos gostos musicais, como já mencionado em um capítulo anterior, são bem diferentes. Mas Lori percebeu quando excedeu na euforia por uma cerveja a mais e tem pegado leve na playlist.
O que rende bem uns cinco pontos é que ela é muito grata com o pouco que a mimo com compras. Ela fica eufórica de contentamento com os pequenos bibelôs que invento de comprar para ela.
Se eu trago um pãozinho francês com um condimento a mais, ela se delícia!
O simples é luxo! O pouco é muito para quem tem Deus!
Loriane é cristã e muito devota a Deus! Mais cinco pontos.
De modo que é capaz da escala estar beirando aos vinte e cinco pontos, etapa da revisão da estadia.
Lori passou na entrevista.
E eu não tenho a menor ideia do que fazer.
Me dê um momento para eu te contar que tenho uma pasta com notas pessoais num arquivo no notebook, documento que chamo de “Notas do Cesar”.
Em geral, são alguns pensamentos aleatórios de cunho filosófico, acredito que redigidos em momentos de êxtase, notas curtas que arquivo no celular mesmo, durante o percurso das viagens, geralmente nas horas de espera pelas conduções.
Estava lendo um desses aforismos que peço a licença para compartilhar. Ele diz: Como seria a vida dos seres humanos se a cor do céu durante o dia não fosse a azul?
No que a cor nova alteraria o humor dos terráqueos?
Imagina se o céu fosse sempre o da cor do pôr do Sol e do amanhecer. Seríamos mais felizes e proativos em nossas vidas?
Ou por costume ou hábito, não faria a menor diferença e seríamos as mesmas bestas feras atrás do dinheiro como a maioria?
“Whatever”.
São esses tipos de perguntas que me faço, às vezes, tomando um cafezinho e comendo algum salgado na estação que eu estiver.
E eu costumo marcar onde escrevi. Este tem a marcação de Monte Verde MG.
Me disseram que não é bom dormir e acordar do lado da mesma pessoa por muito tempo.
Eu, com a Loriane, estamos tentando rebater esse argumento para a banca. Nós estamos conseguindo provar o contrário.
É óbvio que é novidade para mim e as coisas todas parecem límpidas com a graça divina no começo.
Isso me fez pensar bem lá no começo quando ouvi o nome de Loriane pela primeira vez.
Foi Barnabé quem me falou, como um bom participante da “rádio peão” de todo empreendimento.
Mas eu, que não sou bobo nem nada, fingi que não sabia e quis ouvir pessoalmente dela.
Foi quando ela se apresentou para mim, na sala do café, estendendo a mão e me cumprimentando. Perguntei, Qual o seu nome? Ela respondeu, bem alto para ser honesto: Loriane. Fiz uma careta, mas logo contornei o constrangimento causado dizendo: Nossa, diferente! É bonito!
Ela falou de prontidão: Pode chamar de Lori.
Acho que a Lori já começou a ser estrangeira pelo próprio nome. Sem ter uma nomenclatura de origem bem definida. Sendo que a maioria das pessoas perguntam em retorno: Lorraine? No que ela responde, fatigada mas orgulhosa, e de um modo pausado que considero sensual: Lo Ri Ane.
Apesar do corpo de Lori condizer que não, essa confusão entre nomes, mais a fala dela levemente rouca, me fez no começo, desconfiar que ela pudesse ser trans.
Dúvida que se dissipou nas primeiras conversas, porque ela é espontânea no que diz, e no meio de um assunto mais pessoal entre eu e ela no café da loja, Lori me contou que havia perdido um filho.
Acho que como a cor do céu, as coisas nessa sociedade têm sido como tem que ser, é aquela história dos Tempos, sabe?
Mas, não deixou de ser um alívio. Saber que ela é hetero de nascença.
Em relação a posicionamentos que eu tenho que possam ser considerados controversos.
Qual o meu posicionamento político: zero! As pessoas viveriam melhor entendendo que se você não for funcionário público ou pertencer a corja política, tanto faz como tanto fez.
O céu vai continuar a brilhar e a escurecer, de tempo em tempo.
Seja quem estiver lá em cima, no poder, eu irei trabalhar como sempre trabalhei!
Qual o meu posicionamento em relação ao capitalismo: está sendo regido de maneira inapropriada pela atitude dos próprios humanos.
O meu jeito de ser revolucionário?
Tenho um trabalho operacional mediano que me permite pagar as contas e viajar.
Não sou escravo do dinheiro e tento fazer ele trabalhar ao meu favor.
Somente tenho um carro, porque precisei, de modo inteligente, me desvencilhar das caronas com o Gilberto. Praticamente nem o uso.
Essa é a minha postura. E no tanto que tenho de memória, para alguns pode parecer que não, mas eu afirmo que sou um guerreiro vitorioso que usa do sistema para se sobressair ao sistema.
Lori estava sentada e esparramada sobre as almofadas no sofá tomando um leite com Toddy. Perguntei:
E aí, como está indo no trabalho?
É bom! Mas é pegado, sabe, muita gente perguntando coisas ao mesmo tempo sobre os produtos, afe! Uma locura!
E a equipe?
Ah, vou ser sincera: Não gostei de umas duas, três de lá não!
No que retruquei, rindo: O básico! Deu a lógica, né?
Pois é, ela deu uma risada lascívia.
Lori é uma cor que ainda não se definiu com clareza no nosso céu estrangeiro. Mas acima de tudo ela tem um bom caráter e excelentes tiradas nas minhas frases.
Um dos lances que devemos alinhar bem morando em dois, levando-se em conta que o casal trabalha, são os dias de folga.
Nós dois trabalhamos em comércio e é preciso se adaptar que aos Sábados, até às 13:00 são horas de batente.
As minhas folgas semanais são às segundas feiras e Loriane, sem que não fosse com muito esforço e ginga de corpo, conseguiu colocar às folgas dela semanais às segundas feiras também.
Assim, temos os sábados a partir das tarde, os domingos e às segundas para planejar e viver.
Noite dessas, estávamos na sacada petiscando Doritos, bebendo vinho e cervejas e mostrei para ela um satélite cruzando o espaço do céu escuro. Ela me disse entusiasmada:
Nossa, é rápido né?
Sim. O que será que este danado está controlando aqui embaixo na Terra?
Como assim?
É que a maioria dos nossos sistemas e aparelhos de posicionamento e tecnologia são orientados por “amiguinhos” como este caminhando pelo espaço.
É mesmo?
Sim. O GPS por exemplo permite a localização em tempo real dos nossos telefones! É muito louco, não é?
Aí, da medo! Ela olhou para mim, me abraçando lascivamente.
Essas conversas saborosas me colocam num estado de êxtase e me rememoram, que apesar de estarmos sendo monitorados segundo a segundo, nós, evoluídos, ainda seremos estrangeiros de lugar nenhum.
Nós dormimos e acordei no meio da noite assustado com a Loriane tendo uma crise de ansiedade.
A respiração dela se alterou, ela começou andar pela casa movendo os braços, pediu para eu pegar um comprimido de 1 miligrama de Lorax e aos poucos foi se acalmando.
A priori, imaginava, antes de viver com a Lori, que essas coisas era frescura, mas a realidade com quem convive de perto é outra.
Eu percebi ela se acalmando e perguntei?
Você precisa de mais alguma coisa? Um copo de água?
Não. Só vou ficar deitada um pouco. Daqui a pouco pode vir deitar de novo aqui comigo.
Me sentei na lavanderia sem saber como agir, como ajudar.
Então ela apareceu bem mais calma e sentou-se na minha frente. Ela disse.
Tenho sonhos muito reais e apavorantes.
Está tudo bem, agora está tudo tranquilo aqui, não é?
Não é bem assim…
Está sim. Peguei a mão dela dizendo, Estou aqui, a gente está em casa, já passou.
Preciso te dizer uma coisa, Loriane deu uma pausa longa.
Você está segura aqui comigo, só controla a respiração, eu disse.
Vou falar, espere só um momento… Eu vejo pessoas de outras vidas. Monstros também. Que certamente não são desse planeta.
E assim descobri que Lori era sensitiva. Para mim estava bem, a minha Avó era espírita, médium ostensiva.
Mas para Loriane sempre foi um peso, com a maior parte da família dela sendo evangélica.
Acordei às 6:30, fiz café preto e um pão com manteiga na torradeira
Perguntei se Loriane que dormia pesado estava bem
Segunda é dia de chegada de mercadorias
Conversa com o motorista e o “chapa”
A nova assistente
O convívio com a nova assistente
Formada em administração com técnico e logística
Um dia de piquenique no jardim botânico, um jantar e uma noite magnífica com Loriane
A discussão com Loriane
Ela fez cuscuz e falei que não queria
Ela cortou os cabelos curtos
Estava embrutecido com problemas no notebook falei que ela estava gostosa como de costume
A armação de Gilberto e o beijo
Falou para Loriane que eu estava passando mal
Ela chega e vê o beijo na sala de reunião
Sai soluçando e pisando pesado.
Loriane de malas prontas para voltar para casa da família
Tenho os meus guias e eles estão dizendo para eu ir embora
Pois eles estão errados Dá uma chance para nós.
A reconsiliacao
O pedido de demissão
A ida para Ilha
O conheciment
o de Florianópolis
Loriane começa frequentar um centro espírita
Achar que iam dizer quem ele foi em vidas passadas
Assistir palestra
O passe
Loriane grávida
O nascimento do filho.