sábado, 5 de setembro de 2026

Estrangeiros de lugar nenhum (inacabado)

 

Sabe, eu me apaixonei. E esse é um bom jeito de começar o livro. Me apaixonei por uma estrangeira. Mas, talvez você não saiba que existem as estrangeiras de território (pessoas do Norte e Nordeste que vem para São Paulo), existem as estrangeiras de fronteira (pessoas que vão de São Paulo para Europa) e existem as estrangeiras da mente, do Ego e da Terra.

Às vezes, uma mesma pessoa guarda mais desses segredos num corpo só. Loriane provavelmente seja uma dessas, como poderia de forma romântica traduzir, andróide híbrida com sentimento, porém, deixemos que eu descubra esta vertente de caráter enquanto discorro a nossa narrativa. E eu peço a sua licença para contar a nossa história.




Deus atua de maneira que nós insetoides não possuímos a capacidade de entender. O que quero dizer: aquilo que nós mais desejamos não nos chega, e para aquilo que não temos expectativas, nos cai do céu no colo. Como uma estrela traçando uma supernova.

Foi assim com a Lori. Não pense que eu não quero que você queira alguém do fundo da tua alma. Isto é o que é mais representativo num ser humano: a profundidade! Mas acontece que a Loriane se disfarçava de algo que não pude entender até que eu a toquei.

Foi num dia raro em que me mandaram para o estoque e, ao entrar, ela estava lá. Eu olhei para ela e fechei a porta às minhas costas.

Se você se aproximar, eu grito. Ela falou com uma voz que estava mais para provocação do que para ameaça, se inclinando para trás nuns móveis velhos.

Você não grita e eu sei. E fui me aproximando. 

A nossa respiração foi se tornando ofegante enquanto nós íamos ficando mais pertos. De repente ela soltou o corpo lânguido de um prazer agora incontrolável e num movimento involuntário, afastou uma perna de outra deixando a vulva exposta para o meu toque.

Fui com a mão entre as pernas dela. Ela gemeu um pouco baixo. O meu falo estava duro feito um martelo.

Nós nos aproximamos e nos beijamos. E a gente se colou em braços e apertos com o medo de que alguém entrasse e nós descobrisse, o medo que era uma pimenta naquele tempero de sensualidade.

Eu fui descendo a boca beijando o corpo dela até a cintura e quando ia abaixar a legging para como um polvo beijar-lhe todo o sexo molhado, ela me puxou pelos cabelos para cima e me disse: não! Aqui não!

Foi assim que entrei no mundo Lori.

Eu disse que ela é uma androide híbrida com sentimento. Disse errado. Eu sou!

Loriane é bem humana. E daí começa o risco. O perigo de me juntar a raça.

Estrangeiros devem se misturar, com a premissa única de não se perder.

E você vai descobrir quem caiu no decorrer dessa história.




Tem um capítulo entre as fronteiras que não posso deixar de fora. A música! Para mim, se há algo sagrado na Terra é a música de qualidade. As que a Loriane colocava em casa eram terrivelmente deploráveis. Sei lá que (perdão a Deus) desgraça é essa de plágio, imitação escrachada de pancadão ou pisadinha ou demônio qualquer sonoro advindo do Norte e Nordeste.

O que jogava ao meu favor é que esse tipo de ritual excitava a Lori. Ela ouvia o cântico dos Orques, abria umas duas cervejas e logo deitava na cama.

Eu me deitava por cima do corpo dela, sentado sobre as costelas mesmo, com a vista para os pequeninos peitos saltando levemente para fora do sutiã e esperava ela abrir os lábios.

Então, inseria o meu falo ereto naquela boca macia cheia de saliva e dava umas bombadas, horas mais delicadas, horas com um pouco mais de força.

Depois retirava o pau cheio de saliva e de gemidos e colocava entre as pernas penetrando naquela concavidade quente e úmida e apertada, me movendo em movimentos um tempo rápidos, um tempo lentos.

E o orgasmo sonoro de Loriane me fazia esquecer e até agradecer a pisadinha e o pancadão.

Aqui, há que se entender algumas diretrizes de fronteira.

Estrangeiros não têm tudo em comum. Mas os prós têm que compensar os contras.

E quando o sexo começa ser o prós, aí inicia o problema.

Lori me viciou. Um estrangeiro maduro não pode jamais deixar se abater por gemidos.




Tomando-se como princípio que nós não somos desta Terra, somos todos estrangeiros. De modo que estaria liberado o sexo e a reprodução entre todos, não fosse o fato que existem os estrangeiros de consciência aberta e os de consciência fechada. Loriane era de consciência fechada.

Ou semi-aberta, sejamos sinceros.

Porque semi-aberta? Pelo fato que ela se moveu para São Paulo.

Não é que São Paulo abra a consciência de uma estrangeira. Mas o simples fato de se mover é um prospecto de bênçãos nas rupturas das grades que fecham as consciências.

Eu sou de São Paulo e me movi para Europa. E lá fui genuinamente devorado.

Esses pensamentos audazes desapareciam da minha mente quando devorava Lori e a gente transava em pé em frente ao espelho do banheiro.

Aqui, a gente vai chegando a abertura do título:

Estrangeiros de lugar nenhum.

Pois se somos todos estrangeiros da Terra, tanto faz para onde movemos. Se não expandirmos a mente, seremos sempre toupeiras

Pensei que sinceramente fosse mudar Loriane, mas o que acabou acontecendo, foi que ela me mudou para melhor humano.

E isso me enoja..




Eis a pergunta que sonda a muitos: os estrangeiros de lugar nenhum de mente aberta são um perigo a sociedade status quo? 

Não. Literalmente bem poucos são a ameaça. Isto porque, a menos que sejam herdeiros, terão que se enquadrar no sistema para sobreviver.

Pouquíssimos se envolvem em política e poder. O reino deles é nos bastidores e nas entrelinhas.

Eu sou supervisor de vendas numa loja de tintas. Estou realizado? Jura que tenho que responder? Mas, assim, o nosso pigmento vem dos Estados Unidos, o que é mil vezes melhor que representar qualquer quinquilharia vinda da China.

E sempre aparece umas meninas quentes e fortes no trabalho e na equipe, o que acaba tornando a coisa toda suportável.

O salário também é legal. A nossa loja é a que mais vende dentro de uma metrópole.

Estou nessa há cinco anos. Talvez agora eu vá dar entrada em um apartamento e começar a pagar o meu imóvel. Tenho um carro utilitário 1.6 e segue sendo assim.

Tenho um mapa mundi na parede do quarto com todos os lugares que andei. Pode acreditar que ele é bem recheado de alfinetes.

Cada alfinete leva o nome de uma estrangeira. Não pego qualquer raça. Eu pego, ou sou pego, por aquelas que causam impacto.

Você tem que tirar os espinhos de cactos para chupar a água limpa.

Loriane entrou na nossa loja há três meses. Está em teste nas vendas.

Ela tem um jeito meigo, carinhoso, fala macia e, obviamente, é bem gostosa.

Está indo bem.

E há três meses vem causando este desequilíbrio no meu modus operandi.




Tenho um amigo. Ele trabalha comigo na loja de departamentos e é, como costumo dizer, um faz tudo, sendo o meu braço direito no setor operacional. Eu o chamo de Barnabé. 

Barnabé é baixo e feio de matar. Ele fala para dentro de um jeito complicado de entender. Sua família é do Norte de Minas Gerais e ele está em São Paulo faz onze anos. Mora num pardieiro de um bairro afastado da onde estou e se sente feliz ali porque tem muitos bares próximos.

A primeira vez que tive uma conversa descontraída com Barnabé foi num desses bares onde compro um assado delicioso de fins de semana.

Barnabé estava sentado sozinho numa mesa lá nos fundos, me viu e, empolgado pela cachaça, me chamou.

O senhor! Doutor! Que alegria ver você nesta espelunca. Sente aqui, “home”! E ele riu com aquela boca de poucos dentes, afastando um mosquito perto dos cabelos.

Ele foi educado, então resolvi ir ao comprimento e tomamos umas cervejas e comemos moela no molho com torradas. Estava delicioso.

Barnabé me fez rir e isso é raro. Desde esse tempo nós nos encontramos às quintas em casa. Assamos uma carne e linguiça, não pode faltar o queijo dele e o “mé” para dar uns goles.

Eu só como carne mal passada. Barnabé come a carne torrada de tão bem passada. Ele diz “uai, não sou vampiro!” E me acho rindo atoa.

Não que eu jamais soubesse, para nós, Barnabé nunca conheceu uma mulher de verdade. Algo que não desmerece a nossa relação e a minha amizade por ele, porque ele é um homem bom.

O nome de Barnabé é Claudomiro.

Claudomiro está acima da minha escala de estrangeiros. Creio que ele é o legítimo estrangeiro da Terra. Não pertence a esse mundo.

Quando Loriane percebeu a nossa proximidade, ela resolveu interferir de um modo audaz, mas compreensivo e até bom.

Ela não perde a oportunidade de bajular Barnabé com falas e gestos. E até o auxilia nas responsabilidades dele.

O que eu posso dizer? Por mim tudo bem,

Eles não são tipos de estrangeiros que passariam dessas provocações lúdicas.

Sendo que o meu relacionamento com Barnabé está bem garantido. Bem como, a minha foda com a Lori.




Você me pergunta se possuo adversários no meu mundo extra-curricular? Sim. Eu tenho um. Ele se chama Gilberto.

Gilberto é o gerente da loja. Ele está sendo cotado para a vaga de gerência regional e a sua vaga ficaria em aberto para mim, ou entre outros dois supervisores de outras duas lojas da região.

Pela lógica e pela proximidade, a vaga seria minha, não fosse pelo simples fato que o Gilberto é um cabaço.

Gordo, branco, calvo, um legítimo dissimulado e, num grau que beira ao absurdo, um bajulador declarado de ricos.

Todo cliente “importante”, que quer dizer que gasta, que significa “tem a tocha”, ele vai lá e de um modo humilhante limpa as botas do cara. Você me entende, né? Um “baba ovo" de primeira.

O idiota nunca ganhou nada com isso, porque se ele fosse um viajante, como eu sou, saberia que todo rico de verdade percebe na cara os exageros de um bajulador barato.

E eles acabam comprando com o vendedor que nunca é o que o Gilberto indica ou chama para perto. Geralmente escolhem aquele ou aquela que estão quietos em se setores consultando mercadoria.

Não fosse por essa, Gilberto mora perto da minha casa. No começo, quando entrei na loja, ele me ofereceu carona. Quando percebi o caráter dele, ficou chato dizer não, e fui meio obrigado a comprar o meu carro para ter uma desculpa de não dividir mais aquela desagradável companhia.

Dia desses estava eu na lotérica para fazer uma fezinha, e quem toca as minhas costas? Virei e pensei em silêncio “filhote de belzebu”!

O puxa saco e bajulador dos ricos, passou a língua entre os lábios e me disse:

O que você faria com tantos milhões?

Eu desejei dizer “daria uma boa parte para cada funcionário da loja, menos para você, seu puxa-saco de fortuna”! Mas pensei melhor e disse:

Compraria um motorhome, aplicaria o restante e com o rendimento dos juros, faria primeiro o caminho dos Andes, tipo de Ushuaia à Machu-Picchu.

Gilberto fez uma careta interessante e bizarra. E disparou o que foi previsível me dizendo:

Pois eu compraria a rede geral das nossas tintas e ia ficar só em campo de golfe enquanto os outros trabalham para mim. E riu com aquela gargalhada de otário babador.

Graças a Deus a minha vez no guichê chegou e fui embora.

Gilberto tem a cabeça fechada? Olha, sou sincero em afirmar que ele não sabe nem diferenciar a cabeça, a mente e o ego do seu próprio pau frustrado.

Vai demorar muitas vidas para babas-ovos tipo o meu gerente serem estrangeiros de lugar nenhum.




Você se lembra, lá no começo, quando disse que me apaixonei por Loriane?

Vou contar como isso começou a acontecer.

Eu estava em casa com ela e a danada quis bisbilhotar um e-mail entre a supervisão e a gerência no qual escrevi de maneira debochada que era pura perda de tempo convocar uma outra reunião para discutir as mesmas coisas de sempre.

Até aqui era o que eu estava conversando com ela na mesa de jantar.

Mas abaixo desse e-mail e abaixo desse outro e-mail, eram mensagens confirmando a reserva de passagem e de hospedagem na pousada em uma cidade de montanha não muito distante da nossa metrópole.

Imagina o que aconteceu?

De modo insinuante e excitante ela praticamente implorou para ir junto, já que era folga dupla dela nesse fim de semana.

Odeio sair neste tipo de rolê acompanhado, mas pensei bem e pensei como homem: melhor uma transa garantida do que ter correr atrás de uma outra qualquer.

Lori foi.

Descemos na rodoviária do pico da cobra às 14:20. Até ali, a viagem de ônibus, tinha sido um teste. Loriane veio quieta em seu celular a maior parte do caminho enquanto eu olhava pelo alto a paisagem da estrada. Achei respeitoso.

Não reclamou de fome, já que passava a hora do almoço. Julguei muito respeito.

Chegou uma hora, tive condolências à fome que ela obviamente sentia quando paramos numa praça. Eu disse:

Ta, quer almoçar?

Ela respondeu de prontidão, Graças a Deus! Onde?

Aquilo foi engraçado. Respondi, Aqui mesmo, uai. Acho que estou pegando meio os trejeitos do Barnabé. Não te contei que o Barnabé é metido à escritor, contei? Ele tem oito livros publicados! Um pior que o outro!

Aí, vamos comer… Ela soltou o corpo lânguido e desfalecida sentou-se no banquinho. Aquele domínio me excitou.

Tirei da mochila uma lata de sardinha e, num embrulho, seis pães de forma.

Lori olhou tudo aquilo com muito gosto e apetite. Me espantei um pouco com a atitude dela, mas achei extraordinário.

Quando fui abrir a lata de sardinha com o canivete, num lance falho, cortei o meu dedão. Um corte leve, mas sangrou.

Lori esqueceu a fome completamente, estancou o corte com a mão dela, quis ir para hospital e farmácia. Falei que estava tudo bem. Não era para tanto.

Porém, a queda começou com esse cuidado carinhoso.

A gente comeu os sanduíches ali e foi até a pousada caminhando.

Ela teve um zelo para arrumar as coisas dela no quarto, ajeitando tudo em seu lugar. Enquanto eu somente joguei a mochila no canto e fui conhecer os arredores.

Quando voltei, Loriane estava no telefone com a mãe dela. Me deitei na rede e ouvi dela uma narrativa muito empolgante e comovente, de um jeito próprio deles do Nordeste falarem e abruptamente devota e agradecida a Deus tudo que ela havia presenciado até aquele momento, e agradecendo a estadia maravilhosa.

Este foi o segundo degrau que cai. Estava me entregando e não percebi.

Na janta, a gente tinha bebido vinho e cerveja, e Lori puxou uma conversa com uma hóspede da mesa do lado. Essas incontestáveis inconveniências etílicas.

Então, Loriane olhou para mim e falou para mulher:

Este homem aqui que está comigo é inteligentíssimo! É forte e independente… Mas no fundo, no fundo… Ele é marrudo porque é sozinho! Dentro do coração dele, ele é solitário!

E ela se levantou e foi para o quarto.

Aquilo foi um tiro de escopeta. Porque eu não imaginava que no fundo dos seus rasos sentimentos, Loriane sabia ler. E ela me leu profundamente.

Cheguei no quarto, ela estava dormindo. Não quis acordá-la. Era uma visão excitante e linda, mas por motivos óbvios, não me pareceu certo acordá-la.

De manhã, nós transamos. Foi bom e foi diferente das outras vezes. Teve carinho, teve sentimento.

No fim ela olhou nos meus olhos e disse:

Estou apaixonada por você,

E não foi aquilo, meu amigo. Foi uma junção de fatores, que fez esse estrangeiro de lugar nenhum de mente aberta desabar no abismo Lori.

E descer na escala hierárquica dos estrangeiros é se diminuir em mesma proporção na escala quântica.




Me encontrei assustado, olhando para o rosto de Lori como se olha abismado o horizonte no deserto do Atacama no Chile.

Ela deslizou carinhosamente os dedos no meu rosto e me deu um beijo doce e profundo na bochecha.

Por que ela estava fazendo isso? Não era mais fácil como era antes?

Me levantei, vesti rápido a bermuda e a camiseta, me desequilibrando levemente, e disse:

Bora tomar o café da manhã?

Ela me respondeu, numa languidez absurdamente sensual, “Estou com preguiça… Vou ficar um pouco mais aqui na cama. Hum, pode ir primeiro, tá”.

Aquilo foi foda. E não foi foda, se você me entende.

Me servi duas bananas, uma nectarina, três mini pães de queijo, um mini pão francês com presunto e queijo enrolados, suco de laranja com mamão e café com leite.

Loriane não aparecia, e por raios e diabos, Deus me queira bem, eu senti falta. Senti a falta dela alí comigo.

Para não pensar o porquê daquele sentimento, me levantei e fui até a área da piscina.

Estava dia meio nublado. Não tinha ninguém aos arredores, o que se tornou bom para meditar na situação.

Cara, sem me gabar, já tive nos meus braços, eu friso, já tive na cama, na barraca, no carro, na lavanderia, em banheiros de metrô, em sala de espera de aeroportos famosos, nos quartos mais escuros de espeluncas antigas do Velho Continente, uma dezena de estrangeiras da Europa, onde conheci todos os infindos segredos e buracos dos nossos corpos ofegantes de calor.

Tem duas que me rememoram o que desejo me recordar para acordar desse sonho abrupto que está sendo a Loriane.

Angelique, da França.

E Carina, uma espanhola.

Angelique, uma loira cacheada linda, de olhos verdes de mar do Caribe. Nos conhecemos na aula de Inglês em Londres. Ela era estagiária na Apple. Eu chamei ela para tomar um café e a gente se beijou e logo estávamos transando, um dia no apê dela, outro no meu.

Carina. Morena de cabelos bem lisos, olhos castanhos, corpo esguio, uma elegância sem mesura para as minhas palavras. Ela estava sem emprego na Irlanda e aquele frenesi de estresse a deixava mais atraente e quente.

Se eu puder resumir em poucas palavras, as estrangeiras da Europa se entregam com a mesma profundidade que chegam e que se vão.

Elas gozam em suas línguas. E as minhas, sem pêlos, como a maior parte dos brasileiros, de um modo pejorativo e até invejoso, pensa.

Elas sabem ler o que você gosta na cama. Não “queimam a largada”, não se atiram depravadas em vulgaridades como se o meu pau fosse o último da Terra. Elas têm o ritmo.

Talvez eu só tenha a sorte. Porque as que escolhi, sabiam interpretar o meu ritmo. E o sabiam traduzir certo e gostoso em nossos corpos entrelaçados e ardentes em suor e gozo.

Me masturbaria nesse instante pensando em Angelique e na Carina, as duas comigo numa mesma cama, sem dúvidas o faria.

E agora, Deus me perdoe, a lazarenta da Lori está sabendo interpretar e encenar, como numa ópera rock de Milão, o que sou e o que quero.

Chegou uma hóspede com um bebê no colo no hall da piscina, para quebrar estes meus devaneios. Eu a cumprimentei com um movimento de cabeça e com a fala e, num momento lúdico da Divina Comédia, o inferno com certeza, Loriane apareceu, chegou perto da hóspede e do bebê com trejeitos de puro carinho, pegou o rebento em seu colo, e cheirou a nuca daquela pequenina criança.

Cara, agora você tem que me entender. Aquilo foi mais que qualquer foda. Foi um abismo de expectativa.

Então, a hóspede e o pequenino se retiraram.

Lori chegou perto, me deu um beijo, sequer mencionou ter tomado o café sozinha, olhou nos meus olhos e disse:

César, a gente bem que podia morar juntos.

Esse é o meu nome: Avelino César de Meira.

Eu poderia responder “Você enlouqueceu!”, mas ao contrário disso, eu disse:

Calma, ainda é cedo.

E eu comecei a me entregar numa vala e ter um lugar, e esse lugar se chamava Lori, de Loriane.




Loriane ficou deitada com a cabeça em meu ombro, e o braço entrelaçado no meu, boa parte do caminho de volta no ônibus.

Eu olhava a vista pela janela imaginando o dia seguinte. Logo de manhã, eu tinha uma reunião marcada com o escroto do Gilberto.

O tópico eram as vendas caindo e o faturamento baixo.

Para mim, nesta época do ano, não era nada anormal. Mas a gerência adora uma reunião inútil de segunda feira e eu teria que enfrentar bem cedo o mau humor do Gilberto.

Loriane se despediu de mim com um beijo adocicado e molhado feito jabuticaba madura, ajudei ela tirar a mochila do Uber enquanto aguardava-a entrar no portão. Ela disse: “Até!”, abanando a mão direita no ar.

Cheguei na loja bem cedo, cumprimentei a equipe de vendas e da reposição, fui ao espaço do café, onde alegremente encontrei-me com o Barnabé. Ele me deu um tapa nas costas e disse: “Tá bronzeado hein, chefe!” E rimos, dividindo um pão francês com manteiga.

Eu já imaginava que o imbecil do Gilberto ia atrasar de propósito, somente para frisar quem manda. Fui andar um pouco pela loja, fiscalizando as etiquetas de nomeação e os preços das mercadorias.

Encontrei uma anormalidade. Algumas tintas que deveriam estar em outro local ainda estavam no mesmo lugar.

Falei alto, sem ser grosso, e até com ironia: “Quem é o responsável por esse setor? O que essas latas de tintas ainda estão fazendo aqui?” E disse, soando à brincadeira “Eu quero nomes!”

Uma voz saborosa que eu bem conheço, respondeu:

“Eu sou a responsável!”

Era Loriane.

Olhei sério para ela e falei:

“Então faça a troca! Para já!”

Ela respondeu “Sim, senhor!” E relou a mão de leve no meu braço.

Avistei à meia distância Gilberto entrando apressado na loja e, com um sinal de braços e mãos apontou a sala de reuniões olhando na minha direção.

Eu me sentei. Ele parou com as mãos apoiadas na lateral da mesa e com o corpo arqueado para frente foi dizendo:

Serei breve, pois já tenho tudo decidido. As nossas vendas caíram consideravelmente, estou sendo cobrado, odeio ser cobrado! Preciso cortar alguém e você é quem será o responsável pela demissão, estamos de acordo?

Esse cara é um filho da puta, e você, caro inteligente leitor, pode imaginar onde essa trola ia dar. E não deu outra. Gilberto soltou um suspiro e disse:

É uma pena, mas a Loriane está fora. Nós vamos demiti-la. Você é o responsável por notificá-la até o fim do expediente. Está dispensado.

A minha vontade era esmurrar aquela cara gorda e calva. Obviamente ele sabe do meu relacionamento com a Lori, e esse foi o jeito da hiena puxa-saco se vingar.

À medida que o dia ia passando eu olhava a Loriane feliz, como de costume, em seus afazeres na loja e olhava Gilberto me olhando com o típico ar de perversidade.

Chegou um momento, não aguentando a angústia e a ansiedade, pois não sabia se era melhor avisá-la cedo ou tarde, chamei-a para sala de reunião.

Loriane veio empolgada e aquilo me torturava inteiro por dentro.

Ela se sentou, perguntei se ela queria uma água, ou um café. Ela pegou um copo de água gelada, levou aos lábios e eu comecei o diálogo:

Lori, as coisas estão difíceis no mercado, a nossa loja não está indo bem, entenda que não é nada pessoal e, tampouco foi uma decisão minha.

Ela foi entendendo e desfalecida na cadeira, perguntou?

Foi alguma coisa que eu fiz? E começou a soluçar.

De modo algum! Você tem ótimo caráter! É responsável, nunca atrasou…

E ela começou a chorar à medida que eu a elogiava. Eu falei:

Vamos encarar isso como uma oportunidade! E se você notou, leitor, eu usei pela primeira vez o plural.

Loriane às lágrimas, me disse:

Mas eu sou sozinha! Não tenho ninguém! E tem o aluguel, as contas…

Eu disse sem pensar:

A gente vai resolver!

E ela segurou a minha mão. E os soluços cessaram.

Foi assim que Loriane foi morar em casa. Com a premissa de ser até ela arrumar outro emprego. Mas, você sabe, não é, meu caro? Eu sei que sabe.




Estabeleci uma escala de pontuação para avaliar até quanto foi sensata ou insensata a decisão de acolher Loriane em casa.

Ela é organizada e mantém sempre as coisas no lugar: um ponto.

Ela não deixa lixo biológico feminino exposto na lixeira do banheiro: dois pontos.

Ela não muda as minhas coisas de lugar: dois pontos.

Ela não me pergunta coisas das quais eu não começo falar ou dei liberdade: três pontos.

De modo que quando o rating chegar aos vinte e cinco pontos, iremos reavaliar a situação. Mas fiquemos, eu e vocês de acordo, que ela está se saindo bem nesse começo.

A gente se zoa e brinca bastante, o que tá okay.

Às quintas feiras se tornaram uma festa!

Barnabé continua vindo em casa e quando ele e a Lori se encontram, parece que o trio inteiro da Barra-Ondina desce aqui em casa.

Os dois dançam agarrados e é engraçado para um caralho!

Sabe, é legal ter alguém te esperando em casa. Me dá toda uma segurança e responsabilidade da qual nunca tive vivência.

Continuo colocando todas as minhas roupas misturadas na máquina de lavar. Se não dá tempo de estender, a Lori estende.

Ela sugeriu se eu gostaria que ela passasse a roupa. De prontidão, eu disse: “Deus te livre! Se alguma coisa de bom os Estados Unidos nos ensina é não perder esse tempo!” Ela riu.

As roupas dela ela cuida como bem entender.

Lori sabe cozinhar: quatro pontos.

Ela sabe a culinária do Nordeste: mais dois pontos.

Esses dias, cheguei em casa e ela estava como que num misto de euforia e ansiedade. Eu disse:

Que foi, Cristo?

Fui chamada para uma entrevista!

Que bom! Não falei que era só ter paciência! Parabéns!

Obrigada! É lá naquela loja de cosméticos enorme no centro!

Pois vá e veja o que acontece. Avalia a proposta, veja se te agrada a energia do ambiente.

Quero muito que dê certo!

Brinquei com ela, As suas unhas e pés são muito bem feitas! Você é cheirosa! Mostre esses dotes ao RH!

Ela fez um muxoxo com os lábios e o rosto e disse: “Babaca”.

Nossos gostos musicais, como já mencionado em um capítulo anterior, são bem diferentes. Mas Lori percebeu quando excedeu na euforia por uma cerveja a mais e tem pegado leve na playlist.

O que rende bem uns cinco pontos é que ela é muito grata com o pouco que a mimo com compras. Ela fica eufórica de contentamento com os pequenos bibelôs que invento de comprar para ela.

Se eu trago um pãozinho francês com um condimento a mais, ela se delícia!

O simples é luxo! O pouco é muito para quem tem Deus!

Loriane é cristã e muito devota a Deus! Mais cinco pontos.

De modo que é capaz da escala estar beirando aos vinte e cinco pontos, etapa da revisão da estadia.

Lori passou na entrevista.

E eu não tenho a menor ideia do que fazer.




Me dê um momento para eu te contar que tenho uma pasta com notas pessoais num arquivo no notebook, documento que chamo de “Notas do Cesar”.

Em geral, são alguns pensamentos aleatórios de cunho filosófico, acredito que redigidos em momentos de êxtase, notas curtas que arquivo no celular mesmo, durante o percurso das viagens, geralmente nas horas de espera pelas conduções.

Estava lendo um desses aforismos que peço a licença para compartilhar. Ele diz: Como seria a vida dos seres humanos se a cor do céu durante o dia não fosse a azul?

No que a cor nova alteraria o humor dos terráqueos?

Imagina se o céu fosse sempre o da cor do pôr do Sol e do amanhecer. Seríamos mais felizes e proativos em nossas vidas?

Ou por costume ou hábito, não faria a menor diferença e seríamos as mesmas bestas feras atrás do dinheiro como a maioria?

“Whatever”.

São esses tipos de perguntas que me faço, às vezes, tomando um cafezinho e comendo algum salgado na estação que eu estiver.

E eu costumo marcar onde escrevi. Este tem a marcação de Monte Verde MG.

Me disseram que não é bom dormir e acordar do lado da mesma pessoa por muito tempo.

Eu, com a Loriane, estamos tentando rebater esse argumento para a banca. Nós estamos conseguindo provar o contrário.

É óbvio que é novidade para mim e as coisas todas parecem límpidas com a graça divina no começo.

Isso me fez pensar bem lá no começo quando ouvi o nome de Loriane pela primeira vez.

Foi Barnabé quem me falou, como um bom participante da “rádio peão” de todo empreendimento.

Mas eu, que não sou bobo nem nada, fingi que não sabia e quis ouvir pessoalmente dela.

Foi quando ela se apresentou para mim, na sala do café, estendendo a mão e me cumprimentando. Perguntei, Qual o seu nome? Ela respondeu, bem alto para ser honesto: Loriane. Fiz uma careta, mas logo contornei o constrangimento causado dizendo: Nossa, diferente! É bonito!

Ela falou de prontidão: Pode chamar de Lori.

Acho que a Lori já começou a ser estrangeira pelo próprio nome. Sem ter uma nomenclatura de origem bem definida. Sendo que a maioria das pessoas perguntam em retorno: Lorraine? No que ela responde, fatigada mas orgulhosa, e de um modo pausado que considero sensual: Lo Ri Ane.

Apesar do corpo de Lori condizer que não, essa confusão entre nomes, mais a fala dela levemente rouca, me fez no começo, desconfiar que ela pudesse ser trans.

Dúvida que se dissipou nas primeiras conversas, porque ela é espontânea no que diz, e no meio de um assunto mais pessoal entre eu e ela no café da loja, Lori me contou que havia perdido um filho.

Acho que como a cor do céu, as coisas nessa sociedade têm sido como tem que ser, é aquela história dos Tempos, sabe?

Mas, não deixou de ser um alívio. Saber que ela é hetero de nascença.

Em relação a posicionamentos que eu tenho que possam ser considerados controversos.

Qual o meu posicionamento político: zero! As pessoas viveriam melhor entendendo que se você não for funcionário público ou pertencer a corja política, tanto faz como tanto fez.

O céu vai continuar a brilhar e a escurecer, de tempo em tempo.

Seja quem estiver lá em cima, no poder, eu irei trabalhar como sempre trabalhei!

Qual o meu posicionamento em relação ao capitalismo: está sendo regido de maneira inapropriada pela atitude dos próprios humanos.

O meu jeito de ser revolucionário?

Tenho um trabalho operacional mediano que me permite pagar as contas e viajar.

Não sou escravo do dinheiro e tento fazer ele trabalhar ao meu favor.

Somente tenho um carro, porque precisei, de modo inteligente, me desvencilhar das caronas com o Gilberto. Praticamente nem o uso.

Essa é a minha postura. E no tanto que tenho de memória, para alguns pode parecer que não, mas eu afirmo que sou um guerreiro vitorioso que usa do sistema para se sobressair ao sistema.

Lori estava sentada e esparramada sobre as almofadas no sofá tomando um leite com Toddy. Perguntei:

E aí, como está indo no trabalho?

É bom! Mas é pegado, sabe, muita gente perguntando coisas ao mesmo tempo sobre os produtos, afe! Uma locura!

E a equipe?

Ah, vou ser sincera: Não gostei de umas duas, três de lá não!

No que retruquei, rindo: O básico! Deu a lógica, né?

Pois é, ela deu uma risada lascívia.

Lori é uma cor que ainda não se definiu com clareza no nosso céu estrangeiro. Mas acima de tudo ela tem um bom caráter e excelentes tiradas nas minhas frases.




Um dos lances que devemos alinhar bem morando em dois, levando-se em conta que o casal trabalha, são os dias de folga.

Nós dois trabalhamos em comércio e é preciso se adaptar que aos Sábados, até às 13:00 são horas de batente.

As minhas folgas semanais são às segundas feiras e Loriane, sem que não fosse com muito esforço e ginga de corpo, conseguiu colocar às folgas dela semanais às segundas feiras também.

Assim, temos os sábados a partir das tarde, os domingos e às segundas para planejar e viver.

Noite dessas, estávamos na sacada petiscando Doritos, bebendo vinho e cervejas e mostrei para ela um satélite cruzando o espaço do céu escuro. Ela me disse entusiasmada:

Nossa, é rápido né?

Sim. O que será que este danado está controlando aqui embaixo na Terra?

Como assim?

É que a maioria dos nossos sistemas e aparelhos de posicionamento e tecnologia são orientados por “amiguinhos” como este caminhando pelo espaço.

É mesmo?

Sim. O GPS por exemplo permite a localização em tempo real dos nossos telefones! É muito louco, não é?

Aí, da medo! Ela olhou para mim, me abraçando lascivamente. 

Essas conversas saborosas me colocam num estado de êxtase e me rememoram, que apesar de estarmos sendo monitorados segundo a segundo, nós, evoluídos, ainda seremos estrangeiros de lugar nenhum.

Nós dormimos e acordei no meio da noite assustado com a Loriane tendo uma crise de ansiedade.

A respiração dela se alterou, ela começou andar pela casa movendo os braços, pediu para eu pegar um comprimido de 1 miligrama de Lorax e aos poucos foi se acalmando.

A priori, imaginava, antes de viver com a Lori, que essas coisas era frescura, mas a realidade com quem convive de perto é outra.

Eu percebi ela se acalmando e perguntei?

Você precisa de mais alguma coisa? Um copo de água?

Não. Só vou ficar deitada um pouco. Daqui a pouco pode vir deitar de novo aqui comigo.

Me sentei na lavanderia sem saber como agir, como ajudar.

Então ela apareceu bem mais calma e sentou-se na minha frente. Ela disse.

Tenho sonhos muito reais e apavorantes.

Está tudo bem, agora está tudo tranquilo aqui, não é?

Não é bem assim…

Está sim. Peguei a mão dela dizendo, Estou aqui, a gente está em casa, já passou.

Preciso te dizer uma coisa, Loriane deu uma pausa longa.

Você está segura aqui comigo, só controla a respiração, eu disse.

Vou falar, espere só um momento… Eu vejo pessoas de outras vidas. Monstros também. Que certamente não são desse planeta.

E assim descobri que Lori era sensitiva. Para mim estava bem, a minha Avó era espírita, médium ostensiva.

Mas para Loriane sempre foi um peso, com a maior parte da família dela sendo evangélica.



Acordei às 6:30, fiz café preto e um pão com manteiga na torradeira 

Perguntei se Loriane que dormia pesado estava bem

Segunda é dia de chegada de mercadorias 

Conversa com o motorista e o “chapa”

A nova assistente





O convívio com a nova assistente 

Formada em administração com técnico e logística 



Um dia de piquenique no jardim botânico, um jantar e uma noite magnífica com Loriane 



A discussão com Loriane 

Ela fez cuscuz e falei que não queria 

Ela cortou os cabelos curtos 

Estava embrutecido com problemas no notebook falei que ela estava gostosa como de costume 




A armação de Gilberto e o beijo 

Falou para Loriane que eu estava passando mal

Ela chega e vê o beijo na sala de reunião 

Sai soluçando e pisando pesado.




Loriane de malas prontas para voltar para casa da família 

Tenho os meus guias e eles estão dizendo para eu ir embora 

Pois eles estão errados Dá uma chance para nós.



A reconsiliacao 



O pedido de demissão 



A ida para Ilha 



O conheciment

o de Florianópolis 



Loriane começa frequentar um centro espírita 

Achar que iam dizer quem ele foi em vidas passadas

Assistir palestra 

O passe



Loriane grávida 



O nascimento do filho.

Trinta dias na mata (esboço)

 Introdução 


Tudo isso começou um bocado antes do que irei narrar. Mas está bom assim. A doença mental é um negócio que não se sabe quando chega em nossas vidas, quando se vai embora e, acima de tudo, se vai algum dia. 

Este é um relato lúdico. Contém fantasia e sonho para garantir grau maior de erudição a narrativa.

Percebo agora que não faz muito pouco tempo que ocorreu esse evento que foi um marco de virada na minha encarnação, uma piscada de olhos no tempo universal, sendo que irei narrar de 2020 a maio de 2021.

E é uma vitória de guerreiro eu estar como estou agora, com trabalho fixo e praticamente independente, financeiramente dizendo, em janeiro de 2026.

Os nomes das pessoas reais foram trocados pelo narrador, bem como o de lugares.


Capítulo 1- A Crise de Pânico em Altinópolis.


O ano era 2020 e estava trabalhando na fazenda de um amigo em Altinópolis.

Eu tinha parado de tomar os meus medicamentos.

Estava saindo com uma menina de Santa Barbara e ela foi me encontrar na fazenda e passamos um final de semana juntos.

Para mim a haviam sequestrado. Caíque e os funcionários.

Passei uma noite inteira acordado pensando que os funcionários fossem invadir a casa e me matar.

Era uma crise de pânico.

O meu amigo foi me buscar e saí do trabalho.

Estávamos na pandemia, se lembra?


Capítulo 2- Retorno para Americana 


O convívio na casa da minha mãe estava péssimo.

Assisti muitos workshops 


Capítulo 3- No Sítio em Ribeirão Branco


Me mudei para o sítio do meu pai.

Foi uma época rica em estudo e ampliação de contatos. Estes registros estão no meu LinkedIn e currículo Lattes, caso pensemos que nunca existiram.

Senti o sítio assombrado.


Capítulo 4- A tomada de decisão.


Estava há alguns meses morando no sítio do meu pai e a coisa ficou deveras difícil. Eu havia parado de tomar o Lítio por questões econômicas. Comecei pesquisar na internet como trocar trabalho por moradia. Descobri o que era permacultura e entrei em contato com dezenas de lugares, inclusive no estrangeiro, que praticam esse estilo de vida. Estava trabalhando de comunicação para uma rede grande destas e realizei videoconferência com o pessoal na Dinamarca e Noruega. Entrei em contato com o Almeida Lima, fundador do Worldpackers. Então o Terra Iluminada  me fez uma proposta para trabalhar um mês pagando 30 reais por dia para morar, aprender e trabalhar com eles.

Peguei uma carona com um caminhão cheio de tomates e algumas outras verduras e cheguei no Ceasa de São Paulo onde um motorista do Terra Iluminada me encontrou amanhecendo e fomos para o que mudaria a história.


Capítulo 5 - Na Ecovila Terra Iluminada 

A noite de festa

O vídeo para um amigo em comum de São José do Rio preto.

Uma menina linda conhecer amiga em comum.

A conversa com a filha de médicos.

A menina de Brasília ir ao meu quarto.

A filha do Rio de Janeiro.

Conversas eróticas e trejeitos de pessoas que não pareciam a de gente abastada.

Imaginei que as pessoas roubavam a personalidade de outros.

Que iam me envenenar e até me esquartejar com facão 


Capítulo 6- Trinta dias na Mata Atlântica 

A fuga e o alívio.

Os tiros ao longe.

Câmeras de vigilância 

Animais que me respeitavam

A voz do alto

Os rios

A chuva

O Sol

A Lua

Os índios 

As flores guias

A comida 


Capítulo 7- Volta para Americana e hospital Seara 

Não lembro muito quase nada

O Dr em casa

O consultório 

A procuração de plenos diretos

A sargentão 

Me amarrarem

Acordar no Seara 

Aguar as plantas 

Horário 

Gincana futebol artesanato e horta 

Assistente gostosa 

As loucas entravam primeiro no almoço e na janta 

Querer ir embora a todos custo



Conclusão 

Sei que a doença convive comigo a cada dia


James Dean e a filha de Epstein

 JAMES DEAN E A FILHA DE EPSTEIN 



Estava em casa naquele ostracismo bacana e meditativo que só a atividade da escrita e uma boa viagem antiestresse social com a mochila nas costas me trazem.

Apesar das caronas estarem arriscadas e perigosas na sociedade atual, uma boa fuga e espairecida numa poltrona de ônibus é revigorante, aquelas no caminho do nada. 

Mas sabe como é, estava longe e afastado das anfetaminas, álcool e afins de estimulantes sintéticos.

A desintoxicação necessária para o além.

Como era a minha folga dupla e ainda por cima carnaval, enviei mensagem para uns quatro amigos trabalhadores, pais de família, aqueles que namoram e são “caretas”, chegarem aqui em casa para tomar um café e, como de costume, não responderam ou não poderiam, o que tanto faz, é um saco. Os bons te abandonam, as feras da noite aparecem.

Iria ficar na rede da sacada tomando um chá, fumando um baseado colombiano e criando parágrafos e frases para mídias sociais, quando toca o telefone. Olho e é o Dean. Atendo.

E aí cara, tudo bem? Quer perder uma ficha?

Eu sabia que aquilo iria acabar num punhado de drogas e putaria, excluindo a desculpa do bilhar. Mas também sei, do fundo do meu coração de beatnik, que essa parte estava me fazendo falta. Contudo, relutei a princípio.

Não vou sair, cara. Estou poupando.

Mas assim, você está poupando o espírito?

Dean é persuasivo. Respondi:

Sim! Acho que também estou poupando o espírito! Algum problema?

Mas eu tenho uma coisa séria para te contar!

E não teve jeito. O meu espírito BEAT falou no meu ouvido e transmiti ao Dean.

Okay, te encontro ali no Mice Cave em cinco minutos.

Cheguei lá no horário. Dean estava sentado e ativamente frenético pelo que queria me contar.

Depois dos cumprimentos iniciais, falei rápido.

Legal Dean, mas desembucha logo o que você quer me dizer, antes que esse lugar infle dos habituais gays, travestis e lésbicas e não possamos conversar.

Dean disse:

Descobri que a filha brasileira do Epstein mora aqui do lado e é a minha cliente! Pedi a Deus essa ajuda no meu projeto atual, e Ele me deu esse presente! Só que agora não sei o que fazer!

Como foi isso?

A cliente estava me devendo, fiz uma pesquisa com os dados dela e cheguei nesta informação! Ela tem ligação direta e hereditária com o Epstein!

Cara, acho assim, você tem que ficar longe disso! Sabe aquela máxima “diga-me com quem andas que eu te direi quem és!”.

Sim, mas a gente pode escrever uma boa história e ir morar em Genebra!

E se não for só isso. A mina não é filha e sim faz parte de uma rede secreta! Macabra!. Ela contratava meninas? Ou talvez foi uma das abusadas mantida agora pela instituição Epstein?

Sim. Preciso aprofundar a pesquisa.

Esses caras são um milhão de vezes mais perversos que os nazistas!

Sim! Porque lá havia uma guerra!

Perversidade grau elevado. Só não estava na mídia!

Não sei cara. Vamos jogar!

E começou a tríade do desapego aos sentidos.

Nós jogamos, cheiramos no banheiro, fomos para o On the Beach, Dean descolou duas graduadas do litoral para vir na casa dele, fomos no Caribbean over Fire, tomamos ácido vendo novinhas dançando funk e assim foi a deslumbrante noite.

Afinal, é carnaval no Brasil.

Cheguei na casa do Dean, o castelo depravado e decadente, louco para mijar a cerveja para fora. Entrei no banheiro e estava tudo escuro, mijei tudo na tampa do vaso que caiu de repente sobre a cuba de porcelana..

Não tinha água nas pias.

Não tinha água para lavar a louça, a pia abarrotada de louças sujas.

A casa é um emaranhado de mangueiras por todo o piso.

Estava morto de fome e tive que improvisar, lavando o que iria usar para jantar na pia do banheiro.

Tinham dois vidros sobre o fogão. Não pensei duas vezes: coloquei as panelas sobre eles e acendi o fogo para cozinhar o arroz e as salsichas e os ovos.

Dean entrou mijar e pegou na tampa e disse: Puta que pariu, que nojo! Você mijou em todo o vaso! Você não sabe como tenho nojo dessas coisas! Vai se fuder!

E eu ria preparando o arroz com salsicha, molho de tomate e ovos cozidos.

Dean entrou na cozinha e disse:

Que isso, cara? Você está cozinhando no vidro!

Achei que fosse para isso.

Você é um animal! É o vidro que eu cozinho quetiapina para as putas!

Como eu vou saber.

Agora espere esfriar, senão vai estourar! Seu burro!

Nós comemos o jantar e Dean foi para o notebook na sala.

Olhando a Grazi, a mina que vem pra cá amanhã, a cabeça do meu pau parece um balão na Capadócia.

Deixa eu ver essa caiçara. Belo exemplar!

E a outra.

Dá uma foda.

Você tem tadala aí?

Claro!

Dean, estava pensando. E se no lugar que eu sumi as pessoas trocavam de nomes?

Como assim?

Os filhos do tráfico! Crianças pobres que trocam lugar com crianças ricas porque alguém da família está devendo para o tráfico!

Você não tem empatia mesmo cara! Amor de pai e mãe é o maior amor que existe!

Acha que iriam trocar filhos?

Sei lá.

Dormi na rede.

Acordei com as galinhas cacarejando e galo cantando e cabra no Bé.

Fiz um café preto, tomamos eu e Dean, fumamos alguns cigarros enquanto esperamos as caiçaras graduadas para aquela putaria típica.

Agora estou na rede pensando sobre a filha brasileira do Epstein. Por mais filho da puta que o Dean seja, ele me traz boas histórias.

Tirei ele da pesquisa que ele está faz

endo na internet e disse:

Posso, por gentileza, ler o que escrevi?


Se há dois anos Deus

Se há dois anos Deus tivesse dito aos meus ouvidos que saiam de um período de grande turbulência emocional e financeira “Filho amado, você vai prosperar no Cheiro Verde Bistrô, haverá mudanças e dificuldades, mas quando você se olhar, em dois anos, e tiver feito a sua parte, a semeadura lhe será reconfortante e inimaginável!”
Pensaria eu, ali naquele momento em meu quarto, que era alguma zomba de algum espírito zombeteiro ao meu pensamento estressado nos pés de ouvidos corroídos pela discórdia de uma esperança vaga.
Pois bem, Pai todo justo e sábio, sou grato por o Senhor me prover saúde agora para afirmar que trabalho nos quatro melhores restaurantes de Americana, em lista: Tijuca, Cantina di Pérgola, Giorno Benedetto e Dal Giardino.
Sou grato porque faço 50% a mais de um ganho mensal almejado que alí julgava impossível de atingir.
Não é o que você fala para Deus, porque somos débeis em nossos pensamentos imaturos, e sim como o escutamos e, aprendendo a escutar, a gente ora com a fé inabalável.
E estou feliz, esta noite, por ter um Pai imenso em justiça e amor e estou orando para Ele.


O Tijuca implementou os telefones para tirarmos os pedidos das bebidas nas mesas e as comandas saírem direto no bar. Teoricamente isso é ótimo, mas penso agora que a nossa grande dificuldade, na prática, está na comunicação visual. Diferente do Cheiro Verde Gourmet, onde é possível enxergar a posição de todos os colaboradores no salão, no Tijuca, pela customização feita na construção do restaurante, ficamos sem saber, quem está separando as bebidas no bar, bem como, onde estão os demais colaboradores no salão, e vice e versa. Quem está no salão não enxerga o bar. A comunicação visual de posicionamento é absolutamente necessária e importante num restaurante. Teremos que agir como grandes em equipe para entregar o que o cliente merece: um excelente atendimento. E o faremos.


Estava concentrado, estudando a composição do Tortelli de Zucca no cardápio da Cantina 
E me veio à memória uma fala de uma personagem num romance que estou escrevendo 
Ela diz:
Acredito piamente no sonho de ter uma companheira legal, viajar por lugares incríveis e escrever vários livros 
E estava chuviscando ali na rua em frente a Cantina e eu esperava você passar
Como se espera o sol secar a água molhada no asfalto 
Disse para uma colega que a luz deveria estar bonita lá fora
E elas saíram ver o arco-íris 
E vi você passando e olhando por debaixo do seu guarda chuva as cores
E pensei
Que composição leva o meu sangue acelerar tanto 
E você não me percebeu ali te observando 
E o meu curto tempo ao seu lado
Se compôs em cores que iriam se diluir no céu 
E percebi
Amar alguém que se vai é como elaborar um prato que não podemos saborear 
Acho que a amo como um perímetro de um coração que não se cabe.

Coisas boas acontecem, viram fotos instamangraveis, 
Meus eletrodomésticos voltaram a funcionar 
Eu ri algumas vezes 
Tenho diversos motivos para agradecer 
Mas na real, estou triste para um caralho 
E amanhã irei acordar cedo, atender no restaurante lotado com a melhor educação que eu tenho 
Porque não podemos nos dar ao luxo de entristecer 
Não podemos nos dar ao luxo de estar mal
Nem ao menos de simplesmente cansar
Porque a vida pede praticidade 
E o operacional não pausa
E o triste não é belo e tampouco instamangravel
E isso é uma hipocrisia 
E realmente o ruim do mundo 


Eu irei te contar um lance, mas é tipo um segredo. Guarde para você.
Eu e a minha namorada estávamos de mudança pronta para Europa.
Não me continha a felicidade por dentro quando chegamos no aeroporto.
Vi o meu irmão sentado no café.
Não resistiu, né mano! Veio se despedir novamente da gente!
Ele fechou a cara. Olhou para Clara e disse:
Eu conto ou você conta?
O nosso chão desabava ali.
Não acreditei na hora.
Mas ele disse marcas íntimas de nascença que a Clara tem no corpo.
Ela se desesperou.
Eu só disse que a gente precisava embarcar.
Ela tentou me tocar no assento do avião.
Fazer com que eu olhasse nos olhos dela.
E Deus sabe, Deus sabe o quanto rezei em todas as línguas que conheço 
Pedindo perdão aos outros passageiros 
Pedi com o ardor da minha alma
Que aquele avião caísse no meio do oceano.


A gente estava pronunciando os nossos sonhos
Sentados numa roda ao lado da fogueira que se queimava, soltando estalos no ar, no sítio do papai.
Quando chegou a minha vez 
Me levantei e me dirigi à frente de todos os demais mal encarados garotos e pronunciei com firmeza 
Eu vou ter um veleiro 
Escrever o nome dela no casco
A gente vai morar numa marina
E dormir com o balanço das ondas vendo o luar.


Imaginemos que nós ambos somos livros
E que podemos ler as nossas histórias várias e frequentemente vezes num mesmo dia 
Cada surpresa que você me apresenta 
É uma nova linha feita no pingo
Que molha todo o bem estar contigo
E a gente se reescreve em beijos e abraços 
Que nunca teriam sido escritos por outrem.


Te espanta as minhas mãos frias nas suas mãos quentes 
Mas você não as retira de prontidão, movimento que me tornaria desamparado, você prolonga aquele deleite, e, ainda me pergunta: Nossa! Está gelado lá fora?
Poderia explicar que a provável causa térmica foi o contato com a garrafa da long-neck tomada há pouco 
Contanto a verdade 
É o contraste da sua alma de cor quente
No meu sangue de poeta.
Onde o existencialismo se torna um dentro e fora 
Entre mim e você.


A sua mesa da sala com essas coisas todas em cima, sei lá, às vezes me assusta.
São objetos de proteção.
Mas a proteção, na real, está no coração. E um pouco no cérebro. Não é?
Por essas e outras falas, quero você por perto. Por tempo indeterminado.

Essa noite 
Sonhei que as suas pernas eram tranças 
Que sufocavam cada tentativa minha de respirar 
E quebravam os meus ossos como uma sucuri 
E sonhei 
Que estava bom entrar com você na água gelada 
E foi aí que começou a queda.


Há uma região no Norte da Itália chamada
Valle d’Aosta
Escrevi sobre como almoçamos, eu e um amigo, num restaurante elegante dali
Mas você não existia em minha vida
E é esquisito 
Porque hoje o momento mais feliz da minha vida
É te ter por perto e ao meu lado
É como a história do riacho para Fernando Pessoa 
Houve certa vez que me compararam ao poeta Português 
Eu só queria que você me comparasse
Com pizza de morango em calda de chocolate 
No frio do Norte da Itália
Quando chego ao seu lado.


O restaurante doa refeições no fim do turno para quem aparece com necessidade. Uma cliente me abordou dizendo: “Que trabalho bonito vocês estão fazendo, assim, eles poderiam estar trabalhando, mas né …”
Quem conhece um pouco a minha história deve entender o que vou expor.
Às vezes, penso que a minha vida hoje incomoda um bocado de gente que deveria tirá-la como exemplo.
Sou portador, há anos, de umas quatro deficiências neurológicas que eu poderia usar como muleta para não trabalhar.
O trabalho cansa? Pra um caralho!
Poderia estar fazendo academia agora, mas estou com o corpo cansado.
Estava voltando para casa pela avenida com as compras.
Um cara que conheço, que aliás tem trabalho, atravessou a rua para me pedir cigarro.
Disse para ele: me ajuda carregar as compras até em casa que te dou o cigarro.
O homem me encheu de injúrias.
Na área de restaurante, para quem tem comprometimento, não faltam vagas.
E é assim em tantas outras que escuto.
Então a pergunta é?
Até quanto o nosso trabalho é bonito?
Quanto tempo leva para a doação se tornar um vício feio de comportamento em quem a recebe?
As pessoas querem o reconhecimento e o ganho sem o comprometimento e o custo para tê-los.
Muitos brasileiros aprenderam a ser folgados e continuarão sendo até tomarem uma chacoalhada.


Escolhi um trabalho sem burocracia e isto não significa que não ocorram algumas chateações.
Pessoas me perguntam situações que me deixaram bravo no atendimento.
Irei relatar duas bem recentes.
Eu estava com uma pilha de pratos na minha mão esquerda e com quatro copos na minha mão direita, passei ao lado de uma mesa e o cliente perguntou: “você atende?”.
Eu disse, só um momento.
Passados poucos minutos, me lembrei e voltei lá.
O senhor, com rosto sisudo, me disse: “Agora não precisa mais!”
Isso não é legal mesmo, lembrem-se.
Uma outra situação.
Uma cliente pediu quatro copos e somente um com limão espremido.
Cheguei na mesa com o pedido dela, e de mais duas mesas, na bandeja.
Ela falou que o copo do limão era com gelo também, e eu tinha um copo só com gelo na bandeja, mas era para outra mesa.
Imagina o que aconteceu?
A mulher pegou o copo da minha bandeja e eu tive que retornar ao bar fazer outro copo com gelo para o outro pedido.
Sabe, não guardo rancor.
Só estou relatando para demais leitores que têm empatia com o próximo, compartilharem comigo um:
“Deixa pra lá! Este tipo de pessoa deve ter uma vida muito, muito triste.”



Podcast Papo com Augusto 
Estava conversando com uma vizinha da minha mãe, e ela ia me dizendo de uma conhecida em comum do grupo de estudos que desencarnou esses tempos.
“Sabe? Aquela que tinha um marido que não gostava muito da filha deles porque ela é da elite e se juntou com um plebeu?”
E continuou:
“Se você tivesse uma filha, você ia querer que ela se casasse com um rico, ou com alguém que cuidasse dela?”
Respondi 
Se forem pais instruídos e esclarecidos, teriam optado com gosto pela segunda opção.
Mas
Estava no Podcast Papo com Edilson 
E no trabalho, os esclarecimentos parecem mais vividos, sabe como é 
A questão é que cuidar bem está correlacionado ao dinheiro.
Supondo assim:
Se você tem um moleque, seu filho, que é bom de bola, você vai querer que o seu menino seja jogador, ou irá instruí-lo ser um atendente, alguém no chão de fábrica, alguém que trabalha em restaurante?
Seguindo a mesma linha de raciocínio 
A sua menina linda, a sua filha princesa 
Aparece um playboy cheio da tocha na sua casa
E tem um José ninguém do seu bairro que gosta muito dela,
Qual dos dois você prefere para cuidar bem da sua menina?


A primeira premissa é que não somos do mesmo mundo 
E sou grato a Deus por isso
Deixa eu explicar 
Faz oito meses que não saio curtir uma sexta e sábado de noite 
E o porquê é que trabalho nestes horários 
Então que moral tenho que dar ou receber de alguma mulher que eu encontrei nestes dois dias e que sai todo final de semana nestes horários?
Zero
Porque este é o meu mundo e estou satisfeito com ele
Com quem convivo e encontro nele
Com quem formaremos algo dentro dele
E escrevi estas linhas sentado ao lado dos motoboys da pizzaria debaixo de casa 
Porque esse é o meu mundo 
E é com quem compartilho conexões e irei viver de verdade.


"Um regador de plástico verde
Para regar uma planta falsa chinesa
Em um planeta artificial
Que ela comprou de um homem de borracha
Em uma cidade cheia de planos de mentira
Para se livrar de si mesmo
Isso a desgasta"


“Levante sua torre
Não estamos todos apavorados?
Pedras, exiba sua preocupação
De algo que jamais encontrará
Não deixe que isso te engane
Não deixe que isso te engane assim
Dançando por aí, dobras em seu vestido de gala”


Estou indo até a esquina do teu planeta 
Baixando a guarda por alguns instantes 
Está tão pesado aqui que estou indiferente 
Tenho jeitos esparsos de me expressar 
Porque seria direto demais dizer que gosto de você 
E a sua resposta poderia ser como uma pedra lançada no lago
É assim mesmo quando o medo entrelaça os paradigmas da minha memória 
E a emoção de te enxergar é mais forte que a razão de te tocar
Mas baixei a guarda e estou indo.


As coisas mudam 
Isso é uma máxima 
Há menos de uma semana 
Tinha freela em três restaurantes
Não por demérito das minhas habilidades 
No momento, não tenho em nenhum mais 
Simplesmente 
As coisas não saíram na realidade como um dos lados esperava
É assim quando a gente enfrenta, sente o medo, mas age 
Acima de tudo age.


Estou pensando que se eu aplicar uma grana por um tempo não necessariamente eu queira abrir um negócio no ramo de restaurantes.
Talvez eu queira ingressar num mestrado e depois no doutorado numa Universidade Federal ou Estadual.
Bons horários, bom salário e um trabalho intelectual e de comunicação também.
A grana seria para me manter durante um período de uns 5 anos.
Essa é uma conversa íntima e pública agora.
Eu sabia que a partir do momento que eu me formasse com 22 anos na época, eu não teria apoio financeiro para mais nada que não fosse pelo esforço do meu trabalho dos meus pais.
Aquilo me deixou angustiado, sabe.
Para alguns essa data limite vem aos 18 anos.
Para outros, praticamente na infância.
Dizer
“Você vai ter um teto para dormir e alimentação não vai faltar, mas mais que isso é por você”
É uma educação um pouco dura, não acham?
Consegui duas bolsas na graduação, mas a minha iniciação científica não foi contemplada com bolsa e acabei não dando continuidade.
Porém o meu currículo acadêmico Lattes ainda é muito forte e atual.
Deixa a água correr por debaixo da ponte.
Mas não irei me esquecer disso aqui não.



Hoje no Podcast Papo com Edilson 
Explanamos sobre uma das situações mais verdadeiras sobre a superfície da Terra 
(Não há maior felicidade para uma mulher do que ficar viúva).
Dissertamos sobre nós mesmos
“Se eu morrer, a minha mulher vai ficar triste?”
Não! Ela vai vir aqui e tomar 5 chopp!!!
E a gente ria


Nai
Tudo bem?
É tanta correria 
Notificações, conteúdos 
Que acho que essa mensagem irá 
Passar batida na grade das suas msgs.
Se eu pudesse me sentar com você 
Para te dizer que eu gosto de você 
Que me faz bem estar ao seu lado
E que as minhas ideias e planos 
Se esclarecem quando tais momentos ocorrem.
Vejo tanta gente neste mundo mentindo uma vida que não é a delas
Pessoas forjando para si mesmas histórias para disfarçar uma vida infeliz 
E aqui está um cara
Íntegro em sentimentos com as palavras 
Sem mentir uma vida que não é a dele 
Dizendo que gosta de você.
Estou envergonhado por escrever isso
Mas todos os grandes planos passam pela fase do medo
E é inegável que neste momento você é parte do meu medo e dos meus planos.
Vou respeitar o seu posicionamento
Eu gosto de você.


Deitei confortavelmente me aconchegando entre três travesseiros e coberto por um cobertor fino.
Senti você por perto e começamos a conversar por pensamentos.
Presumi que a minha escrita, não sendo mais mensagens para você,
Porque você de fato está ao meu lado, 
As minhas personagens podem expressar maldade.
Umas das maiores tragédias da minha vida ao teu lado
Seria que um dia você dissesse “para quê isso tudo?”
E eu entendesse que não faz sentido investir em milhares de frases de Instagram 
E em treinar bons livros 
Sendo que você está aqui comigo 
E podemos tirar férias deste mim forçado.


Dormi entre as letras 
E sonhei o teu nome
Como os ponteiros
Que contavam o tempo
Longe de você.


Sabe, foi quando enlouqueci, no meio da natureza, em um momento de clara lucidez, pedi a alguém e a Deus um cachorro.
Eu sou grato ao Criador dos mundos pela existência dos cachorros. Por esses seres nos mostrarem lições de amor puro e incondicional.
Temos um cliente que chega em condições deploráveis de higiene no restaurante.
Aquilo causa desconforto em todos.
Eu não sabia que ele enfrenta problemas de saúde.
Todos passamos ou passaremos por essas.
E atendendo eu vi um cachorro ou cadela esperando no lado de fora do restaurante.
Ela é devota àquele homem quando todos, inclusive eu, o querem afastado.
Os cachorros não lhe trarão um copo d’água ou um prato de comida, nem colocarão um soro no seu braço, mas eles são almas de pureza num mundo frio.
Quando eu enlouquecer da sociedade, espero que no momento que eu me deitar na grama, tenha um cachorro, com o seu focinho molhado ao meu lado.


João mostrou para Maria o desamparo de uma vida saudável, a vida que ela tinha na roça. Maria trouxe a delicadeza, João, a aspereza da posse.
João tinha a ambição de crescer pelo consumo. Maria queria um filho.
Vieram para cidade sentir o desenvolvimento em seus corpos duros e gordos.
A rotina de trabalho sem vida social. 
João e Maria, fechados numa cela de grades, entregando o osso de frango para bruxa má, em lugar de um dedo humano gordo. Assistindo Reels de fuxico de vidas vazias ou desgraça qualquer mundana.
Agora não dá para seguir de volta os grãos de pão deixados pelo caminho.
Eles traíram o que existe de belo:
A natureza ingênua.


Num mundo fluido, o hábito não leva a perfeição, leva ao fracasso.
Obviamente acredito e participo de muitas convenções que são saudáveis e necessárias.
Caso o contrário, voltaria para mata.
Mas na verdade, o ser humano médio se acomoda numa vida de hábito por não ter uma cultura de existência vasta.
A resposta de estar bom ou não estar bom é correlacionado com o conhecimento do ser.
Portanto, o estar bom para alguns, é desagradável para mim.



Não foi fácil negar uma proposta que me faria conhecer um lugar novo e bonito.
Porém, na comparação de ganhos, eu não entraria ali com os bolsos tão mais cheios.
E a princípio, não é um lugar para carreira.
Como freela, em Americana, tenho o contato dos melhores, sabendo o bom ou o mau que cada um oferece, em equipe ou nos salários.
O fato é que não dá para medir de agora qualquer plano de carreira.
Trocar garçom por garçom, eu trocaria para ir a um lugar irado como o que por hora descartei.
Subir para gerente? Uma meta difícil nos restaurantes de Americana que conheço.
Continuar aplicando para abrir sociedade e ter o meu próprio lugar?
Whatever,
Pé no chão e trabalho duro.
Por enquanto é a regra.



Maurício é um homem de bem. Que isso esteja acima de qualquer suspeita nesta narrativa. 
Na tentativa de superar um pai que o abandonou na adolescência e de uma mãe que considera muito melhor a opinião e o conselho do filho mais velho, irmão de Maurício, o matuto se empenhou nos estudos.
Já leu tudo um pouco.
De Platão a Paulo Coelho.
Fez Universidade renomada.
Mas Mau tem no que pode-se dizer uma deixa de caráter.
Ele aprecia prostituta.
Porém, e isso é permuta dele entre o sentimento de amor com o tesão, ele não gosta de prostíbulos.
Maurício as encontra escondidas na vida pacata e cotidiana.
Então ele vai comprar o pão da manhã sem saber se irá encontrar o seu fetiche no balcão ou no caixa.
A vida de Maurício aparenta ser um tanto sem sentido com essa autoproposta masoquista de amor.
Mas eu torço para que ele não leve socos e pontapés, ou algo ainda pior, porque, como vos disse, Mau é um homem bom e de bem.



Maurício is a good man. Let that be beyond any suspicion in this narrative. In an attempt to overcome a father who abandoned him in adolescence and a mother who considers the opinion and advice of her older son, Maurício's brother, much better, the country boy dedicated himself to his studies. He's read a little of everything. From Plato to Paulo Coelho. He attended a renowned university. But Maurício has what could be called a character flaw. He appreciates prostitutes. However, and this is his exchange between the feeling of love and lust, he doesn't like brothels. Maurício finds them hidden in the quiet, everyday life. So he goes to buy his morning bread without knowing if he will find his fetish at the counter or at the cash register. Maurício's life seems somewhat meaningless with this self-imposed masochistic love. But I hope he doesn't get punched or kicked, or anything even worse, because, as I told you, Mau is a good and decent man.



Eu te pergunto se os filhos dele estão felizes porque o pai encontrou uma companheira, casou com ela e porventura irá dividir a herança com ela e com os filhos dela?
“Eu te digo, se os filhos dele fizerem por onde e estiverem bem de vida, eles não vão ligar para isso, não.”
Eu te respondo: se os filhos dele receberem todo o apoio emocional e financeiro para estudar e se formar nos melhores lugares para estarem bem como estão, eles não vão ligar mesmo. Agora, se não tiverem apoio, eles vão engolir um rancor mortal.




I ask you, are his children happy that their father found a partner, married her, and will eventually share the inheritance with her and her children? 
"I tell you, if his children earn it and are well-off, they won't care about that."
I answer you: if his children receive all the emotional and financial support to study and graduate from the best places to be as well-off as they are, they really won't care. Now, if they don't have support, they will harbor a deadly resentment.




Acho que não é uma boa escolha eu ficar doente, mas do que já sou obviamente, me drogar, fazer greve de fome, sei lá, largar o emprego, mudar de país (essa seria boa!), para que a minha família me note e porventura cuide de mim.
Eu tenho que assumir as consequências das escolhas que fiz.
Se as mesmas foram prejudicadas e influenciadas por um emocional em frangalhos, um ambiente de suporte desestruturado, tanto faz, é passado.
Tenho que ter honra pela confiança que me depositam no meu emprego.
Orgulho do que faço e seguir fazendo bem feito.
Ainda não sei o motivo do que fiz para que mesmo depois de eu quase ter morrido de fome ou frio, eu ainda ser tratado com frieza. Mas algum mal muito grande eu causei no coração dessas pessoas.
Então é ter entendimento.
Eu moro e vivo sozinho.
À tarde, janto qualquer coisa, tomo uma cerveja ou outra.
Tenho pouca reserva para emergência, é fato.
Não assisto televisão, uma benção.
Gravo os meus vídeos, o porquê, também não sei.
As contas da casa não atrasam, avante César.
Então para que ficar mais doente, se com o mal que lhes causei, Deus aínda concede a graça de vocês hora ou outra terem orgulho de mim.
Acho que as pessoas que concederam um pouco de tempo e oração a minha história vão compreender.
E bem e o resto, como no fim de Dom Casmurro.




A palavra miserable na língua inglesa expressa uma miséria em relação aos sentimentos.
Quando escrevemos um livro, estamos compartilhando sentimentos com pessoas que muito provavelmente estão vivendo, quando nós autores já morremos.
Então, seria a minha vida miserável, se eu não me desse conta, que no meu entorno de seres, existe em atitudes, muitas vezes desperdiçadas pela distração, inúmeras oportunidades de fazer rir ou chorar.
Deus levará, com certeza, mais em conta essas atitudes em vida que os meus livros escritos.
Às vezes, tento com exageros de mensagens. Com presentes fora de hora. O meu preferido toque são os olhares distantes.
Quase sempre incompreendidos e comparados com desequilíbrio e até loucura.
Penso quão caladas e castradas são milhões de mulheres por viverem ao lado de miserables homens.
Homens que não aprenderam a expressar e a ouvir. Homens “ocos”.
Ter a característica de decisão não significa ser um enorme boçal em relação a compreender e expressar sentimentos.
Essa vida é mesmo louca.
Mas como dizem: “a tampa está por aí!”



Sabe, caro leitor,
Estou fatigado da hipocrisia desta vida. E vou te contar o porquê.
Me apaixonei pela sociedade.
E sociedade, você sabe, ou casa com sociedade ou não casa.
Me apaixonei por quem quer subir para sociedade. Deu no que deu.
Daí, pensando que aprendi, resolvi entrar de corpo e alma na baixa.
Me apaixonei por uma de baixo, que não entende ou tem vivência de nada disso que estou te escrevendo e pasmem, não vingou em nada.
(O digníssimo leitor me respondeu).
“As suas duas primeiras colocações são tão óbvias que nem irei gastar as minhas palavras.”
“Deixa eu me concentrar um pouco na terceira.”
“Sabendo quem você é, a sua mulher em questão da (baixa) é gostosa.”
“No que só muda a perspectiva e não o resultado do que você julgava ter aprendido nas duas primeiras situações.”
“Ela quer um futuro bom para os filhos que porventura ela venha ter. Diferente do que aconteceu com ela.”
“Você é emocionalmente burro, sem mais.”



(Não irei publicar por motivos inteligíveis)
Ontem no Baobá teve um evento de senhoras com temática do Brasil e da Copa.
No meio do frenesi, enquanto estava trabalhando, fui paquerado e cantado por uma delas.
Obviamente fiquei constrangido. Desconversei e continuei trabalhando.
Daí fui refletir nas minhas atitudes e pensamentos em direção a outras pessoas.
Eu serei sincero no que escreverei agora:
Me deu asco se eu cogitasse ficar com qualquer mulher que não me atraí em química ou conteúdo somente porque ela tem dinheiro.
E pensei que posso estar magoando algumas mulheres que julgo, mas que porventura se sentiriam mal como eu me senti quando elas, muito mais que eu, obviamente, são assediadas no trabalho e fora dele.
As coisas saíram tanto do trilho que os humanos não se dão mais a chance de sentir o frio na barriga, a mão suar, o coração acelerado e faltar as palavras que você quer dizer. Esperar ansioso a mensagem fora de hora. Sentir o cheiro na blusa que ela esqueceu ontem. Ouvir que você pode usar a mesma escova de dente. E você fica feliz. Sabem, essas coisas chamadas “bobas” que na verdade são a grande diferença.
Porque virou um lance técnico e mecânico na grande maioria.
Eu sofro. Mas prefiro mil vezes ser a minoria. E também, irei combinar com alguém minoria.
Ponto.



Se você tiver um homem que te escolha como um Todo e não somente como uma parte
Que te permita a liberdade para dizer e agir, porque nisto reside a atração 
Pois o sábio nunca escolhe somente pelas aparências
Um botânico sabe além das cores de uma folha 
E é óbvio que o físico importa, senão os espíritos não teriam aparências
Mas a emoção resiliente que sempre permanecerá é daquele que te cativa e abraça na plenitude da tua feminilidade
Que aprecia-te dos teus gestos aos teus feitos
Que reconhece a tua fragilidade e a tua força que pontua os meus pensamentos 
Que são incompletos e incompreendidos quando veem as suas mãos na gola da minha camisa dizendo: “pausa”!
A mim, quieto neste mancebo escuro dessa sala
Me falta demonstrar o que digo
Porque eu sei te ver assim e você está distante.



Ela roubou a minha criatividade com a sua concha e pérola. E depois, percebendo o que ela havia perdido, com aquele maravilhoso sorriso dissimulado, ela disse movendo o rosto: "até logo!”



A vida é um emaranhado de sonhos trocados por conveniências. Por que para mim haveria de ser diferente?


Você sabe que está lidando com uma moeda forte, quando você guarda as moedas, bem guardadas.



O tempo passa como um raio no corpo eletrocutado! E em chamas! Ele tenta encontrar, passando os olhos pelas diversas bancas de comidas típicas, algo que sacie o estômago virado.
Os cheiros aguçam perniciosamente a sua memória de quando sentavam juntos, trocando juras com o testemunho da chuva.
A banda toca uma toada de forró pé de Serra e o homem se retorce com meninas e meninos dançando próximos uns dos outros ao lado da fogueira.
Ele, numa tentativa de não tremer, se aninha a uma das filas do caixa.
De repente, uma voz o chama.
“Galileu!” Ele permanece impávido, sem pronunciar uma única palavra ou mover o corpo.
“Olha, a Talita me disse que você não vai mais comprar o apartamento.” Ela balbucia um pouco os lábios. “Porque você não tem mais motivos! Não faz mais sentido!” E o encarando nos olhos, continuava: “Você pensou naquele tempo que eu fosse o seu motivo, não achou?”
Galileu, ponderou no que percorria o seu sangue naquele instante, e sem mais conter as emoções, disse: “É naquele tempo eu achei que fosse sim! Um bom motivo!”
Leonora, desfalecida em algum remorso que sentisse, disse: “Bom, pelo menos você poupou! É bom, não é?”
Galileu, imponente retrucou. “É uma pequena fagulha na tempestade! Não chega nem perto de eu poder proporcionar uma escola particular e bons médicos para o nosso filho!”
“Não se trata disso, Galileu! Você pode encontrar uma esposa que ela mesma proporcione esses privilégios ao filho de vocês dois!” E soluçando, disse: “Talvez formar vida no exterior! O que você sempre almejou!’
Leonora tentou tocar o rosto de Galileu, num movimento de suntuoso carinho.
“Não toque em mim!” O homem deferiu em ódio. “Sabe Deus do que você está infectada!”
Leonora, cabisbaixa, murmurou:
“A pandemia acabou, Galileu…”
Galileu disse rijo: “Para nós… ainda não acabou!”




A memória é uma instância do espírito um tanto sacana. 
Estava deitado no sofá da sala olhando a cruz da igreja através da sacada. Me deu uma saudade imensa do mar.
Tive a oportunidade de estar em frente a mares em três continentes, Americano, Europeu e Africano.
Eram momentos de transição, o que torna a sacanagem memorável e ainda maior, porque quando você desconhece para onde está indo, a experiência é infinitamente plausível porque existe a chance de ser a última e única vez. É mágico!
Então sabendo que pensar no mar não era como sentir o mar, resolvi me levantar e andar até a farmácia comprar um dos remédios.
Pensei em voltar para casa por um caminho menos óbvio. Estava passando do lado de uma choperia famosa e escutei o gerente começando falar com a equipe de metas de vendas. Acho que foi o estopim que fez a diferença no que vem adiante.
Passando em frente a um prédio muito chique, eu me lembrei de uma caixa, um caixote de madeira na nossa infância. Minha e do meu irmão mais velho.
Era uma caixa vazia dessas de carregar pêssegos, quem sabe.
Mas era a caixa que imaginamos construir juntos um avião.
Nós nos empolgamos no começo, fizemos ajustes no caixote, eu vibrei de alegria e falei que a gente iria precisar de um motor.
Meu irmão disse que não daria.
Foi tipo, era só brincadeira.
Nossa! Aquilo me decepcionou demais.
Pensei que a gente pudesse voar! Como assim?
Memória, sua sacaninha.
Agora eu me deitei aqui na rede depois de um banho quente.
Que sensação maravilhosa!
Mesmo não tendo o mar.
E mesmo não tendo você para conversar aqui comigo coisas da sua memória.
Os remédios estão pagos. O médico será pago. As contas estão pagas, e o que me desagrada, tem solução!
Só depende do meu esforço! E sair da zona de conforto, obviamente.
Eu não trocaria isso pelo mar, nem por você ao meu lado e nem por sonhar que caixas de pêssego com a companhia do irmão podem um dia voar como avião por entre nuvens no espaço.
Porque a experiência é uma vez só!
Então, dê valor a sua, okay?



Estava sentindo os garfos, e depois as facas, um tanto geladas nas minhas mãos depois do longo expediente do atendimento. Jogávamos elas numa bacia de plástico, com tantos outros talheres, após termos polido com o álcool e panos brancos.
Larissa veio andando ao lado da mesa e sentou-se. Começou a comer entusiasmada os pedaços de pizza, empilhados um em cima do outro no prato.
A luz está linda nos cabelos presos e no rosto dela.
Os garotos que estavam me ajudando começaram ofendê-la por ela estar comendo.
Larissa começou, soluçando devagar, um choro sentido.
Ali, naquele momento, eu entendi que a amava.
Os meninos saíram.
Eu olhava os talheres e não olhei para Larissa quando disse:
Você teve autorização para comer, não é?
Ela não conseguiu responder.
Então tá tudo certo. Não é?
Então ela falou baixinho:
Eu fico mal… essa falta de educação,..
Mas olha, as pessoas são assim mesmo. Eu falei, e neste instante olhei para ela. Eu queria abraçá-la, quando o gerente chegou e saí de perto.
Eu saí de perto por tempo demais.
Pois agora, tomando um copo com água e comprimidos, percebo com assertiva lógica, na solidão do meu sonho, que é um sentimento difícil de lidar não poder estar no lugar que a gente queria.
E minhas mãos estão geladas.
E o prateado dos talheres se apagou.
Quando ainda não tenho um choro para sanar no meu peito.



Foi o momento em que percebi a necessidade de arrumar as minhas melhores roupas e pertences de higiene dentro da mochila, guardar e arquivar os documentos necessários, vender os móveis do apartamento alugado, e aceitar a proposta do hotel do sul para me mudar para lá.
Ares de montanha para sanar o meu coração. Dessa vez empregado. Outra vez sozinho, mas com Deus, e ainda amadurecido pela dor.
Era a festa de confraternização do final do ano de 2025. Eu me vesti com cuidadosa elegância, entrei na empresa, cumprimentei os antigos e atuais colegas que ainda estavam trabalhando, e procurei com os meus olhos astutos por Larissa.
Estava ansioso e me encostei na bancada do bar. O barman puxou assunto comigo e nem percebi do que se tratava.
Então, Larissa veio da sacada e nos cumprimentamos movendo nossas mãos e balançando os dedos à distância. Ela estava linda, como sempre achei, porém disfarcei o entusiasmo me distraindo com o celular.
Eu comecei a sonhar, e foi a primeira vez que sonhei naquela noite.
Larissa sentada no nosso sofá, pelo sol de manhã, ajeitando cautelosamente as meias no torço dos seus tornozelos, minutos antes de sair para trabalhar.
Alguém me chamou, e retornei àquela realidade.
Os funcionários que estavam trabalhando foram se trocar e se ajeitar para a festa.
Quebrando todas as minhas expectativas, Larissa não veio sedutora do trocador.
Ela julga que eu não sei, mas ela fez esse movimento de propósito. Ela ia dançar e não queria estar atraente.
E dançou, de fato, e bastante e contagiante.
Era contagem regressiva para eu ir embora, fui me despedir, e Larissa disse:
Mas já! Pelo menos, dance uma música comigo!
Eu disse o que sabia dizer:
Dançar? Eu não sei dançar!
Ela chegou mais perto:
Vem! Eu ensino! É só me seguir!
E daí, eu sonhei pela segunda vez naquela noite.
Dançar sozinha com ela no alto de uma montanha com toda a natureza em volta.
Pingo de cachoeira, pássaros, vento de raios de sol e beijos. Milhares de beijos quentes e molhados.
Mas fadiga a alma, caro leitor, viver de sonho em sonho.
Preciso vender as coisas e partir para o sul.



Quero conhecer alguém que queira formar família na Europa, meu amigo!
“Sim! Porque o seu teto é alto. Quem conhece o que é bom não volta para trás”.
Como você diz: “você precisa aceitar quem você é primeiro”!
“Falo de experiência própria. Eu não pude viver uma família lá trás, com a Amanda e a minha filha Gabriela, porque eu não estava preparado. E agora eu posso, com a Suzana e a nossa filha que vem aí!”
Eu não irei aceitar alguém na minha vida se eu não puder oferecer o bom, não é?
“Sim. Cada um tem o seu teto! E o seu teto é alto! Cabe Europa”.
Porém, enquanto não dá por causa de documento, irei para o Sul! De maioria descendentes de lá!
“Pode dar certo. Não forme tantas expectativas. Lembre-se que sorte não é propósito”!
Deus me dará a segunda chance! Como fez com você e a Suzana e a filha linda de vocês que vem aí!
“Eu tenho certeza que Deus proverá!”
“Mas lembre-se que eu te dei uma segunda alternativa para você realizar as suas viagens e voltar a ter a vida que você teve lá atrás”.
Qual?
“Entrar num concurso público em Americana! Você volta a ganhar bem, com estabilidade e terá tempo de sobra para viajar! Você verá como a mulher que você procura aparece!”
“Vai por mim!”
Deus abençoe, meu amigo.
“Amém”!