quinta-feira, 12 de novembro de 2015

sociedade dos puros



Com o objetivo de entrar na Sociedade dos Puros, seguindo as pistas que encontrei em antigos livros de Ciências e Filosofia, e ouvindo homens e mulheres místicos que cruzei pelo caminho, como a chave para abrir os portões, recorri ao seguinte feitiço e ritual: Primeiro. Há um ano escrevi cinco testemunhos que fossem mais verdades de meu coração que consulta de pesquisa, contudo ainda assim sendo relevante ao tempo contemporâneo e de caráter universal. Esses testemunhos serviram como palavras introdutórias para a minha apresentação e a compreensão da mensagem inicial de Clarice. Segundo. Deveria queimar a roupa que eu estivesse vestindo antes de cada tentativa de iniciação. Terceiro. Lê-los em voz alta em lugares sagrados da Terra. Estou em condições miseráveis de dinheiro e saúde física. Só o autoconhecimento adquirido em cada detalhe do caminho me mantém em pé. Minha consciência peca um pouco e tento relembrar os testemunhos. O Primeiro é sobre a percepção da Arte. O Segundo é sobre a percepção da Economia. O Terceiro é sobre a percepção da Medicina. O Quarto é sobre a percepção do Relacionamento de Casal. O Quinto, e, não menos importante, é a percepção de Como me Sinto e a Proposta de Fuga. Os lerei em voz alta. Caso ainda continue o relato é porque não entrei na sociedade, exato como fez a civilização Maia. Talvez então eu deva percorrer novamente todos os lugares sagrados da Terra e repetir em cada um deles com o mesmo feitiço. Quando eu estiver entrado, e isso tudo for revelado, e terminar encerrando um ciclo e abrindo uma nova era em meu desenvolvimento espiritual, desejo mesmo que você possa um dia se juntar a nós. Estou atravessando o Atacama, no Chile, em direção à cidade dos incas, no Peru. Voltei em situações fisiológicas lastimáveis da Europa, Oriente Médio e Ásia. O tempo é agosto de 2016. Acantiza.

OS CINCO TESTEMUNHOS

(A realidade sem a forma, a fraude-ficção sem a projeção. Na sociedade Moderna essas duas partes de cada sentença dita não eram feitas para coexistir na concepção de raciocínio de um mesmo sujeito vivente nesse planeta. Ou o sujeito era realista e enxergava o contorno dos objetos sem questionar e acabava ali, ou o sujeito era imaginativo e projetava os valores que os objetos pareciam ter para si e era infinito. Vagar no meio das duas posturas cognitivas nunca foi ambiente seguro para a grande massa. Desde épocas remotas verdadeiros líderes do pensamento universal vieram para nos provar que esses limites na mente humana iriam ceder, só não sabíamos quando isso ocorreria em maior escala populacional. Alguns artistas e pensadores começaram relatar que esses limites na percepção dos sujeitos estavam caindo em bom número na virada do sec. XIX. Sr. F. N. chamou a geração que desceria de Espíritos Livres). 

(No contemporâneo Pós Moderno os valores dependem do contexto em que os itens estão sendo analisados. Tem muito de quântico nisso. O mercado de ações como exemplo é uma projeção de bens fixos em bens imaginários. Praticamente impossível de se calcular o valor real de uma mercadoria pelo tempo de trabalho e conhecimento necessários para produzi-la como concretizou Marx na chamada mais-valia. Os valores dos bens fixos atualmente variam da necessidade real ou induzida que um sujeito comprador vê naquilo que exista em matéria ou cotas abstratas. Como numa boa rodada de poker Texas hold`em o sujeito analisa que a sua mão está boa com as duas cartas recebidas, contudo depende da abertura gradativa das demais cartas na mesa para saber se de fato está. O ambiente é fator primordial no valor dos itens e por isso o capital humano de uma empresa está sendo tão expostamente analisado em suas reações comportamentais. O tempo de revelação ou não dos itens é fator primordial no ambiente em que a realidade e o imaginário se juntam para decidir os valores). 

 (Na Medicina, médicos e pesquisadores mais sensatos estão concluindo que o fator ou não determinante de determinada doença depende da reação do ambiente de fatores visíveis e não visíveis em que os agentes e o sujeito estão envolvidos. Vai-se ainda chegar à concepção que o tempo comportamental a se analisar no sujeito clínico é maior ao que a terapêutica tem se prestado em estudar: o sujeito tem um histórico de suas vidas passadas que deve ser levado em conta para que os clínicos cheguem aos exatos diagnósticos). 

(Qualquer relação humana na atualidade Pós Moderna que se queira abençoada e protegida de danos e que se queira digna de valor atemporal necessita si conhecer em caráter de dualidade: coodependência de valores individuais e únicos de afeto e atração das duas almas no histórico de séculos passados de convivência, e a cooperação pelo desenvolvimento mútuo das partes em seu crescimento individual, espiritual e único que lhes foi dado nesta existência e forma atuais. O casal formado desta união está envolto em energias simpáticas e milenares. O sucesso do relacionamento depende do tempo integral em que os itens envolvidos se dedicam a demonstrar considerações de fidelidade; afeto e conciliação múltipla, sendo essas, maiores que qualquer adversidade e desejo vindos do ambiente).

(Alguns sujeitos pós-modernos, mesmo cientes da dualidade que converge na concepção dos itens, ainda vagam no meio do seu posicionamento individual e lutam que a realidade é uma fraude á menos que se faça a projeção dos objetos numa tela que as distancie dos símbolos firmados no momento em que as coisas estão existindo. É bom aqui você já ser um indivíduo de intuição, caso contrário você está num belo impasse: não vai sentir a forma e não vai controlar a projeção. Não terá a retidão da ofensa e assim o proveito da ignorância. Digo que nesse estágio, e com esse corpo, sem sensibilidades mediúnicas ostensivas, e, se você consegue escrever um discurso desses, é melhor se perder numa viagem eterna de ácido e álcool, anulando-se em libido e em pretensões de investimentos financeiros de qualquer forma).
(Acantiza. Cinco Testemunhos escritos em 05 de novembro de 2015, Alto Vale do Ribeira, Brasil).

- em algum tempo futuro-
Devidos conceitos apresentados, senhoras e senhores do júri. Coloco-me aqui em posição de me encontrar com os autênticos Espíritos Livres anunciados pelo Sr. F. N. e, entre eles, aquela que vem a ser a minha parte mútua na escala universal. Se ela não estiver no envoltório carnal, ao menos deixe-me ver a vossa forma e faça-me lembrar do nosso amor milenar. Os detentos aqui têm os seus dias de visitas, as horas de sono latente não tem sido nada suficientes, são uma espúria inconsciente porque não fixo tais momentos em minha vivencia emocional, quando desperto, ela se foi. Façam-me o favor, tem sido a minha súplica desde que aqui estou, mesmo que ainda eu não soubesse disso e, além do mais, creio que tenho merecido por boa conduta. O tempo é março de 2016, após ler os testemunhos em frente ao Taj Mahal, Índia, tendo passado pelo Egito, Israel e Palestina, nos templos de Jerusalém e ainda na busca.

- em algum tempo futuro-
Tenho passado algumas estações e os Espíritos Livres mencionados pelo Sr. F. N. não estavam lá para o grande encontro. Dirijo-me ao bar do vagão central e está vazio de gente viva: são 05:01 am. Encontro um pouco de chá e leite mornos. Mesmo com as tundras distorcidas no enquadramento das janelas, úmidas pelo frio exterior, a calefação que acalenta o organismo nesse interior de floresta siberiana, não tem como desaparecer que quem escreve é um dos Hollow Men. Abro o notebook. Não fossem pela mensagem de Clarice na caixa de entrada de e-mails; pelo texto em que manejo as memórias como a torquesa prendendo com arame recozido na carne experiências desse vácuo, eu teria desistido.
Minha família de sangue traiu as minhas expectativas; minha esperança no ser humano desfaleceu. Como os investimentos feitos na terra, para mim foram todos enterrados. Estou por mim, cruzando países onde me sinto mais perto de algo bom, com pouco dinheiro, sem proposta de trabalho. Não devo sair daqui para um final de sucesso, encontrando-me com os distintos anfitriões percebidos por Sr. F. N. Resta-me retaliar-me ao grupo como tentei fazer na época. Transcrevo a mensagem de seis meses passados acrescentando melhoras.
Sinceramente seus,
Acantiza. (No trem Trans Siberiano, Rússia, meados de abril de 2016).

- tempo passado-

CLARICE TORNOU O GRUPO “ópio na caixa de correios: a campainha é intimidade demais para alguém com quem não teremos um orgasmo” DE ABERTO À PRIVADO.

Okay, deixem-me relatar porque não faço mais parte desse seleto grupo:
Em lugar de crítica ácida pela atitude viciada e estúpida do ser humano, negocio barganhas com eles;
Ao invés do grito, rezo;
(Mesmo que não aja paixão na minha oração. E nem poderia haver: há necessidade da presença do que não faço mais parte para sentir paixão).
A antiga casa de minha avó virou um comércio agrícola. E não há em mim o que sentir disso;
Existe aqui uma ilha onde imaginei-me com uma mulher, uma biblioteca, lareira, adega, criar alguns patos e marrecos, luz de lampião à gás, algum moleque ou menina crescendo pelas beiras. Não há mais brilho de esperança em tal sonho;
Não sei qual foi o filme ganhador de Cannes;
Não escuto mais Dylan: o escritor e o cantor;
Em lugar das camadas de cores da folhagem das árvores, espero o brilho torpe da resina;
Ao invés de pisar a areia e me remeter à cena de amantes, rolando à milanesa;
Aos relatos dos intocáveis mistérios dos castelos de areia infantis;
Até remeter-me ao clichê do nome dentro do coração, que não deixa passar que é também a menção de SOS, escrito dos náufragos:
Até isso seria atitude melhor que perder horas de planos pensando em que preço eu irei vender o metro cúbico de areia média grossa e seca;
O Lago dos Cisnes agora é de tilápias para corte.
Motivos, os admito de montes:
Fui dobrado por uma medicina mercenária e aceitei o que me indicaram como cura. Graças à Deus isso acabou. Mas essa quebra não é o suficiente para trazê-los de volta: se me dessem a capacidade de escrever um tratado de como os humanos estão sendo dopados por falastrões de jaleco que não fazem ideia da Medicina que vcs conhecem, mas vcs não atenderão esse apelo: mencionei Deus nessa sentença;
Nego-me ter uma viagem de ácido ou de haxixe de qualidade. Na minha hora de morte vou pedir uma dose, como fez Aldous Huxley à sua mulher: desculpem-me, não terei mulher que entenda isso;
Afastei toda e qualquer companhia feminina em quem eu pudesse depositar tamanha simbiose de missão espiritual.
O que vivo? Vivo um contracenso, agarrei-me ao caminho que desconheço: não tenho respeito de quem atraio agora e quem eram os simpáticos, dos quais remeto-me nesse apelo de exclusão, neguei a companhia e a luz ao cair.
Vosso intento era inspirar as minhas escolhas. Decidi ser consciente delas. É o risco que aprendi com os perecíveis humanos: meter as mãos pelos pés de um corpo limitante: não há mais volta; podemos estar cruzando o mesmo caminho, mas não vamos nos reconhecer.
Não sei qual é o melhor ou pior deserto: a fraude que estou vivendo aqui nessa redoma cinza e sem contrastes, ou onde vcs estiverem, juntos como fomos um dia, sem a presença de um brilho mais que eu pudesse dar.
Mas tenho que admitir: sinto a falta do amor que tínhamos por nós nos nossos bons tempos;
Os grupos de seres humanos que posso frequentar se contenta com a selfie em bares de quinta categoria comparada ao quadro que temos com as luas do planeta Saturno ao fundo.
Sinceramente seus,
Acantiza.. (Alto Vale do Ribeira, Brasil, 02 de novembro de 2015. 18:03:33 hs).

-algum tempo futuro-
Após ler os cinco testemunhos em mais um lugar nos Caminhos de Santiago, Espanha, tendo saído de Porto e a caminho do território francês, absolutamente despido de vestes e em frangalhos de saúde, comecei lembrar-me que toda essa busca se desenhou após a minha exclusão por Clarice do grupo de Artes e Filosofia. Então veio a consciência do que eu estava fazendo e me tornando em meus investimentos na terra, que seriam o retorno financeiro que esperava para realizar essa viagem. Com os desentendimentos familiares, tive que partir por minha conta e o meu credo. Estou retornando para América do Sul. Irei para o Chile e Peru, depois México, Estados Unidos da América, Canadá e por fim Alasca. Se eu não tiver entrado na Sociedade dos Puros, devo começar a jornada de novo por outros rumos e meios, outras pessoas outros anjos. A minha consciência falha, não acredito que o meu corpo terá forças fisiológicas porque vivo na mais completa miséria material. Não consigo manter como conteúdo emocional nada pelo que passei no caminho até aqui, é como se somente o presente existisse, ou somente o fato da procura em si apagar os fins neles mesmos, ou a presença constante, ainda que intangível, do objeto de desejo faça com que nada nem ninguém nessa Terra tenha o valor e a importância objetivas. Então você, alma mútua, se está na mesma busca e compartilha dos mesmos anseios, venha ao meu encontro, antes que seja tarde e, eu não consiga lhe contar a minha história e testemunhos, com o devido amor no enredo, enredo ainda não envenenado pelo rancor que advém de sua falta. Recomeço a ler os testemunhos. O tempo é Santiago de Compostela, Espanha, maio de 2016. Acantiza.


 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

scarlet lucy de beson


Talvez o meu corpo não tenha sido feito para isso de ter tato. É só porque as roupas não secam nesse apartamento que estou começando essa conversa. Começa um filme no Cult com uma baita suruba. Os caras iriam rir aqui se falasse de novo que tem algo a ver com Rimbaud como quando fiz nos “paraísos artificiais” quando eles só reparavam nos peitinhos, foi assim que disseram: “peitinhos” da atriz principal. A coisa toda é um pouco mais complexa comparada ao vento da sacada. E elas se chupavam. Hoje fui ao prédio do Tribunal de Justiça aqui de Floripa e lá tem um restaurante pequeno para tão grandes excelências. Mas foi ali que o cara sem tato foi parar por meio de um anuncio de grupo de facebook. Achei estivesse no lugar errado, tão fino o garbo, mas era ali mesmo e descolei o e-mail de Srta. Michele. Sei lá o que ele vai sentir quando ler, mas enviei-o, como faço inúmeras vezes nas tardes que volto a casa na esperança que um deles entenda que ali está mais uma grande oportunidade de eu fingir que sou equilibrado o suficiente para vaga.  Mas tenho a boa graça de enviar o anexo com o portfólio de minhas publicações. Talvez alguém não seja tão besta assim de nivelar o meu tempo de serviço por datas e perceba a beleza deste momento. Foi uma das inúmeras coisas que aconteceram, mas é a que me pareceu mais relevante. Talvez não para os outros seres humanos que cruzei, eles reparam de outra forma, e não questionam sua relação com a realidade dizem somente que não há oportunidades no momento. Poderiam somente as malditas roupas secarem?

A moça veio cobrar o aluguel enquanto eu dormia de tarde.

- Foi mal, vai ficar para amanhã, Dona Ana.

Eu poderia até tentar explicar que é pelo fato de eu não me entender com a minha libido num dia tão cheio para ir ao banco, mas deixa para lá. Talvez Paulin entenda que é pelo fato saudoso de eu me lembrar que não tenho a menor relação de simpatia com  os meus sentidos que estou escrevendo nessa madrugada. Mas foi legal até aqui. Amanhã tem mais, se o amanhã deveras existir como me mostrou Scarlet Lucy de Beson.

terça-feira, 23 de junho de 2015

SANTO ANTONIO DE LISBOA


Dali é possível ver a ponte do centro de Florianópolis, iluminada bem ao fundo, parado abaixo dos guarda-sóis com luminárias de madeira. A água vem bater no cais e veem-se barcos e velas. Paredes de pedra sempre o deixaram extasiado. Como podem os noivos que casam ignorar que logo em breve farão parte do cenário do narrador. Um passeio no bistrô. Camila me chama para tirarmos uma foto. Não discuto se é justo cortar a minha introspecção. Não foi assim quando fui com Jaime e Cassandra na praia da Armação. Depois no Boni na Lagoa da Conceição. Cada natureza e companhia tem um êxtase próprio. Paramos na lápide com a inscrição de Santo Antonio de Lisboa. Fábio percebe que o único que pode proporcionar o prazer de cervejas e petiscos sou eu. Concordo, estou no êxtase e Camila reclama de fome. Lisandra que sempre soube persuadir diz que obrigará o nego a pagar. Não é para tanto. Serão só alguns noventa reais para desfrute. E sem eles estaria em casa. Lembramos ali no banquinho em volta a mesa de pedra que seria interessante se o meu pai voltasse a me visitar. Porra, aquela peixe assado com originais na praia do Forte com o velho foi demais. Sou o anfitrião e as visitas estão felizes. Conversamos que será interessante arrumar uns extras em Jurerê Internacional e eu penso em como tirar a arma do console para assaltar o primeiro burguês dali que não me permitir ficar na ilha. Bang Bang Shoot Shoot pilantra. Dessa vez não será como quando tive ainda dinheiro e não arrisquei até o ultimo cents em terras europeias. Isso ainda me dói. Dessa vez não saio tão fácil. O sorriso de Camila ao comer o pastelzinho, a alegria de Fábio a sorver mais um gole, e a reminiscência de Lisandra da sua lua de mel em Canasvieiras, tudo me indica que estou no caminho certo, dessa vez. Meus caros bahianos, é bom sair do Santinho. Poucos narrariam tanto em tão pouco. Alojamento não mais, vamos tentar é estar nas paredes de uma dessas galerias de arte. Pintados por um ousado observador. Sejamos resolutos. Todos se espantam quanto e quando pago. Lisandra estava fora, Fábio: “meu Deus”, Camila: “porque você não falou que eu tinha cartão”. Meus caros, não é isso de conta que vai me limitar permanecer na ilha. Sim seria deixar de me encantar com os delírios dos noivos saindo da igreja sem perceber que só o que preciso é encher o refil de realidade sem descartar a minha narrativa. A magia está em como se leva a realidade de ser pago sim por algo operacional, contanto com o extra que somente nós sabemos para observar o que os outros nem sacam. Santo Antonio de Lisboa, por hoje levei você comigo. Deixei Camila, Lisandra e Fábio por instantes. Voltamos a ver a ponte ao longe e rumamos para o terminal.  

 

Acantiza, 23 de junho de 2015.














 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

NUMA BOA


Eram três da madrugada, Tomas estava assistindo um filme bizarro e Tito havia saído para encontrar uma gata e ia aproveitar para pegar dez reais em fumo com alguns dos traficantes que perambulavam ali na orla. Não ia sair muito da rotina, a coisa estava se armando como o de sempre, digo, a cerveja estava gelando na geladeira, e estávamos eu e Tomas degustando um Cabernet chileno em copos normais mesmo. Erik estava com Camila na suíte, deviam estar cochilando entre algum e outro papo no espanhol cantado de Camila. Eu saí para sacada, dali dava para ouvir as ondas quebrando na areia como de costume, enquanto Tomas ria alguma coisa assim:

-Esse filme é maneiro. Os caras estão pesquisando os filmes mais bizarros da internet, olha isso. O cara tem um saco no queixo.

Olhei e era verdade. Dei uma risada. Então recebi a mensagem de aviso no whatsapp, era Sandro, ele falou em inglês como costumávamos nos brindar:

-Hei body, we are heading to Santinho´s get some wine, beers and the ordinary alcolic cocktail of Fábio. You guys whant some more?

- No dude, everything is done. Just come fast. Eu respondi.

Fui e peguei uma cerveja em alegria da vinda dos caras. Erik saiu do quarto e perguntou se poderia se juntar no vinho. “É claro, meu caro”. Logo Camila se juntou a nós e sentou-se ajeitando-se no sofá, dividindo o pequeno espaço com Tomas.

Os caras tinham que chegar para a gente pedir as duas pizzas gigantes e uma doce. Eu optaria pelo lanche gigante feito por algum gaucho migrado para cá, na verdade. Mas tínhamos que escolher algo que comportasse no estômago e no bolso. Já era fim de mês e sabíamos que uns teriam que pagar mais que outros na conta, então caberia mais a pizza mesmo. O fato é que eram três da madruga e se não viessem em meia hora parariam as entregas. Aqui não era São Paulo ou Rio onde os deliveries são vinte quatro horas. Eu disse:

- Caras, vamos pedir o rango. Sandro e Fábio estão a caminho.

- Liga do meu, uma escarola com bacon, uma calabresa com cheddar e uma brigadeiro. Todos concordam, disse Tomas.

- Os caras tão ostentando, falou Erik. Mas quem sou eu para discordar desse menu. Só tou com o orçamento baixo.

- Eu pago hoje, amor. Falou Camila, em brazilian spanish colombian.

Ligamos. Ia demorar quarenta minutos. Os caras chegaram, avisou-nos o interfone. Todos ficaram na euforia, formamos realmente uma amizade, um time. Quando cruzaram a porta foi aquela saudação. Quando Fábio pôs o coquetel alcoólico na mesa foi aquele sarro. Alguém disse:

-Cortes no Orçamento.

- O nego nunca saiu dos cortes do orçamento, disse Tomas. Todos sorrimos.

Tito chegou e estava feliz com seu encontro. Colocou o fumo num pires e alguém começou separá-lo com uma faca. Ficamos mais felizes ainda com a chegada das pizzas gigantes. Foi um banquete dos Deuses, como de costume. Eu já não fumava mais maconha mais isso não era problema: a energia da galera era demais.

Perguntei então se mais alguém estava vendo as postagens de nossa antiga colega Suelen no facebook. Referia-me a ela ter se batizado evangélica e ultimamente estar postando um punhado de textos bíblicos. Sandro comentou finalizando aqui:

- Caras, isso vai até fazer bem para ela. Ela já não tem muito o emocional legal e só escolheu caras que não ajudaram muito nesse aspecto. Digo, todos que tinham menos que trinta anos. Deixa ela assim...

Tem sido realmente fantástico. E digo: isso é o mínimo do que posso ir dizendo. Há muito mais. Porém amanha é dia de ir a Santo Antonio de Lisboa, e quem sabe trabalhar numa galeria de artes.

 

Acantiza, 22 de junho de 2015.

sábado, 20 de junho de 2015

DA LITERATURA E DO PORQUE VOCÊ PODERIA PENSAR EM FORÇAR A SUA DEMISSÃO


DA LITERATURA E DO PORQUE VOCÊ PODERIA PENSAR EM FORÇAR A SUA DEMISSÃO

Você acha que alguma coisa te segura nessa posição que julga por existir como posse. Eu digo: quem é você? Pois eu vou dizer que nem posição e nem existência cabem no julgamento de ter qualquer oposição ao teu eu anterior. Quem julga é a sua consciência. Você tem que se aproximar disso ou alguém vai te tirar dela, de possuir, de ter vida. Cedo ou tarde acontece. Tiram-te a posição de segurança e isso é uma graça concedida, uma pérola entre ostras fechadas em si mesmas. Tiram-te. Se não for por um boçal aproveitador que atende como supervisor, vai ser por algo que chamam Deus. E será forte. Um baque. Você tem que desistir. A liberdade está na base da desistência de querer ser alguém para outros, ter um nome, ter um cargo. Nada disso é o seu eu anterior. Não faz qualquer e mínimo sentido no valor, na vitória final da morte. Você tem que resistir ao que dizem. Fazer de cada dia uma negação do fato que alguém domina seu direito de não ser como o outro. Ninguém domina a ignorância de querermos ser alguém. Nós já nascemos alguém.  A liberdade está no fato de você se negar um ser humano, pois ouve um antes. A liberdade é não querer ter qualquer posição fixa. A liberdade é enfiar um pau na boca de quem diz que a sua careira cabe somente a você. A sua carreira profissional é uma misera ilusão, criada pelos que lideram o jogo, ilusão de que você pode existir eternamente. Você é perecível como o idiota que julga tomar o seu destino. Você tem que escolher, ser capaz ou incapaz de não ser alguém. Eu fui incapaz. Eu me espelho no outro e construo um eu que costuma se frustrar. Seriam esses que percebem aqueles que mudam o mundo? Porque tenho a gana de mudança! Alguém me fez assim social e a cada renuncia minha eu me desfaço para ser a realidade que eu era antes de nascer. Meu eu anterior. Para que tenha valor o que você me diz, eu preciso primordialmente aceitar que eu fui um eu anterior. E o que sempre existiu antes foi algo como Deus. Depois as palavras. E agora a tua misera demissão se torna um nada imenso e uma brutal oportunidade de afirmar tudo que eu quero dizer. A volta ao que importa. Entender o que vale de verdade para me chamar alguém e, quando for a linha final, me entender alguém autêntico e levar isso comigo. Garçom é como vocês me viram, mas é como escritor que eu vou permanecer. Tem mais a ver com meu eu anterior. Meu próximo contrato poderia ser com uma editora, assim me polpa o título deste texto no próximo e demais contratos findando uma carreira da qual não faço questão alguma. Do diário eu vou às personagens. Nisso vocês me ajudaram. O resultado de um falso visionário é ser enganado, e tanto ele, quanto os que o enganam, são bons caracteres. Vindo em breve.

Acantiza, 20 junho 2015.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Concerto Para Violino - Brahms

HAVERÁ SANGUE
CONCERTO PARA VIOLINO – BRAHMS

Cheguei na beira do promontório
De lá lancei uma pedra contendo
Numa fita larga teu nó simplório.

Contanto seu nome ainda não tinha
Sido inventado pelos anjos. Tremendo
Eu saí de lá porque esnobaste linha
Após linha a minha fita.

Não há de saber daqui se entendo
O calor é algo vão que me limita
Você pode sentir o sangue escorrer
E voltar fazer parte desse solo.

Tenhas piedade e não faça-me correr
Por um irrefletido, de mim, consolo
Amor igual é algo que tende consumir
Descendo a ladeira, pois lá é onde dormes
Calada e acobertada pelo nosso não existir.

Ainda não inventaram você
E a mim tampouco fizeste falta.

Mas os violinos soam nódoas da tua boca
Carne do meu sangue

Tendes paciência que no próximo lance
Estaremos um para o outro

Do mesmo modo que o concerto
Está para os créditos que se levantam.

A única forma que devo criar
É olhar da ponta o teu véu
Cair pelo vento que sopra uma harmônica
E nós vamos nos repetir quando Deus
Quiser ter nos inventado em outro momento
Como um drible e lanço de dados.

Um médio acelerado duma casta
Que vesti moldado um término e basta.

Eu correrei lá de novo
Portanto lá esteja para o povo
Curioso de nos ver abraçados
Desprezando todos os males dados.

Eu busco e você sabe que sim
Não ter nome não é tão mal assim

Nontanto diga-me o teu que lançarei na fita
E nossa sorte será arremessada em outra dita.

Esteja lá que eu te busco
Como um violino segue ao outro
Em harmonia, carne e boca.

Esteja lá que vamos ofuscar o resto da existência
Ainda não inventada, para nós dois, de pouca ciência

Pulsaremos juntos como um concerto para os créditos
Você está para mim como estou para ti.

E assim nós construiremos nossa maluca matemática
Porque ambos temos a mesma sílaba que colocarei na
Fita, no lance, nos dados e em nossa carne e boca.

.Acantiza.

A Tensão Do Título Para O Teu Nome

Gorila Café
INT. Noite.



A TENSÃO DO TÍTULO PARA O TEU NOME.



- eu sinto falta do meu corpo

- de tal modo que a comida te escapa ao gosto

- s´eu falar, já não seria mais de mim falta.


Ela pega a bolsa, retira um maço e uma sombra.

É a anfitriã.


- onde aprendera desfilar tais modos?

- no mesmo armário onde guardamos as roupas.


As pessoas vestem sorrisos bonitos em noites de leitura.

Declamação bem feita dá vontade de fumar,

No banheiro do segundo piso.


- como se sente?

- abandonado.

- um poema deveria ser quantificado em força

Pelo tempo que nos deixa abandonados.



É ela quem vai ler.

Tanto faria quem o fosse.

Quem ouve presta mais às luzes que

Às vozes.


Assim o Leonardo, pode servir as mesas

Com a mesma tranqüilidade que lê,

Com a absoluta certeza que ninguém o ouve.


- não és tu, Leonardo?

-não.


Sem pormenores,

Tu escreves aquilo que é.

Aquele quem ouve, já não é mais tu.


-você me emprestaria o isqueiro?

- você não é daqui, é?


Sempre nessa parte da festa, penso que não há resposta a ser dada.


- cantaste uma pedra em lá maior!

(lá maior, repetia a entusiasmada platéia)


- é do porque o título é somente uma base.


Realmente as pessoas se vestem bem para cantar.


- moro aqui do lado e é tão fácil como uma partitura.


À noite, na Normandia ou no Gorila,

A luz que o dia esconde

É um espanto!


- a palavra, toda ela tem massa.

- você já encontrou o seu peso?

- refere-se ao meu corpo?

Ela acena que sim.

- é um peso que causa a tensão do título para o teu nome.

Já são bem menos pessoas agora.

- então, deixe-me ler algo que escrevi.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Recomeçar, recomeçar e recomeçar



O faraó Cambises e rei da Pérsia durante um ataque epilético e um milênio depois renascendo como Jerônimo Mendonça que sofre de artrose multipla na adolescencia e vida.
Jesus voltando em forma de puríssima luz horas depois da crucificação descendo nos confins da Terra e retornando com Judas adoecido em remorço nos braços.
O soldado romano ao ver a lança com o sangue de Cristo em seus olhos agora curados.
Judas retornando como Joana D’Arc depois de sua recuperação na colônia Casa do Pai.
Centenas de militantes recaidos adormecidos por 1900 anos nas câmaras de magnetização.
Denizard descobrindo-se Allan Kardek (a sua ascendencia) com um grupo de médiuns em compania de Amélie.
Emmanuel dizendo três vezes para Chico ter disciplina.
A faixa de Gaza em brasas, onde eu gostaria de nascer.
Podem ser todos temas de pinturas feitas por um cristão que ordenou uma das Cruzadas
Cujo tempo não poderia ser preenchido na mesma tela
Ou simples frases demonstração do tempo maior, o infinito que Deus (que sempre vai criar) nos empresta para aprendermos o significado de nos amarmos.
E até que eu renasça em Israel
Acho justo imaginar temas de telas que não passam de abstração de um Eu.

Acantiza 10/07/2013, Americana.

 CONTO:

Você pode lembrar-se quem você era, antes que o mundo lhe dissesse quem você deveria ser?


Vou escrever no tempo do Império, quando me diverti com a menina negra Mariazinha. Não foi a minha primeira mulher, porque o meu pai, como um bom Coronel, me levou à casa da Madame e me envolvi com uma de lá, metida à francesa. Mas Mariazinha era melhor, porque a menina, com quem dividi a infância, me amava. Eu gostava de homens também. Foi quando meu pai passou a me odiar. Mamãe choramingava pelos cantos a vida monótona em que se enfiara: casamento cômodo, vida enfadada. Eu sempre precisei demais, nunca estive contente, mas tinha medo...
Treze de maio de 1888. O dia em que a Princesa Isabel assinara a Abolição da Escravatura, data que deu, a ela, a glória e o adeus ao trono e, a mim: adeus àquela encarnação. Morrera ali, vitimado de parada cardíaca, causada por dose excessiva do sedativo. E aquele olhar da enfermeira, só agora posso entender aquele derradeiro e fulminante (como a dose em sua agulha) olhar. Nós fomos marido e mulher em outra vida. Eu tive uma vida de excessos e causei dor à enfermeira, naquela época Eloàde. Ela se desesperou com o marido ausente e ligado as rodas bohêmias francesas, sinais da luz que viria a brilhar naquele século, no pincel de tantos excessivos pintores, e tanto estimulava os sensitivos, como eu era. Kardec ainda não era falado, não tinha ainda escrito o seu tratado Espírita. Tanto desentendimento que seria evitado... tanta paixão para um só corpo: um livro. Os espíritos que ali estavam: deles nós tivemos falta, Eloàde. E trocar o egoísmo por amor.
Eu desejaria falar mais, lembrar mais, mais esse medo: esse medo me domina até que eu perca os sentidos. Acordo e um dos socorristas, dos mais solícitos, está ao meu lado. Ele me diz, com uma cara angelical, que eu preciso repousar. Eu digo que entendo das coisas. Ele diz saber disso. O que me desespera aqui é que sabem de tudo. E onde está Mariazinha então? Por que com ela não posso falar? E quando vou me lembrando da casa antiga, mamãe, papai, do meu irmão... da ganância deles e do egoísmo nosso, tudo toma um tom de entardecer, sinto de novo o meu braço sofrer a agulhada com o líquido fatal e desfaleço... O que estaria acontecendo naquela terra, meu Deus?
O que está acontecendo comigo? A doença não passa com a morte? Disseram-me Ezquizofrênico. Tenho por mim que isso vem me acompanhando desde o tempo da França, talvez mais... foi muito abuso de tudo: abuso de pensar a vida momentânea, não me ligar as coisas da alma, do espírito. Porém o pior que as bebidas, mulheres fúteis e homens também, sexo volátil, o pior mesmo é o meu excesso de mim mesmo.
Na fazenda, o meu adoecer foi até que bom para todos. Meu pai morrera aos poucos de vergonha do filho, justo o mais velho, o nascido para cuidar das terras, agora um louco, que já diziam impotente com as mulheres e solícito até aos galanteios masculinos. Mamãe estava cansada dos meus insultos, já que agora estava mais agressivo e tomara liberdades de acusá-la, na frente das mucamas e tudo. O meu irmão, único e mais novo, nem se fala como sorrira com o “incidente”: teria a herança toda para ele.
Dizem aqui que eu era de outro tempo, e isso soa até como bondade e me torna mais calmo. A equipe socorrista sabe como falar com a gente. Talvez se eu tivesse nascido na Corte? Sabe, eu até fui lá: Rio de Janeiro. Mas senti muito medo daquela modernidade. Quando é que alguém portador de um caráter egocêntrico, que gostava de se gabar de si, poderia fazer isso no meio de tanta gente estudada, versada? Voltei para o interior e para Mariazinha.
Onde ela estaria agora?
Brincando de soslaio com as camélias que o avô recebera do neto e plantara em lugar escondido? Ela, eu não me lembro de outras vidas, não. Também pudera: somos deverás diferentes. Dizem aqui que espíritos diferentes, diferentes escalas evolutivas (como dizem) não ficam muito juntos, não: só com o véu da pele. Eu não entendi muito bem isso. Acho que quando ela não for negra, a gente vá até se casar.
Mas eu penso em Eloàde também, e vai me causando calafrios... como ela virara enfermeira? Então, eu lembro que acertamos que seria assim, naquela França que esvanecia o moderno, seria assim o nosso acerto em terras brasileiras, modernas, e, me dá muito medo... meu braço vai coçando, o “belisco” ardido da agulha, me dá muito medo e perco os sentidos. Alguém me ampara e os pensamentos começam de novo. Disseram-me que estou em um hospital. Acho que nunca vou sair da maca. Você sabe me dizer?